Lá se vai, a alta noite e no recôndito de meu pensamento, um furor se anuncia roubando-me o sono. Queria eu poder exprimir tudo aquilo que me aflige, e talvez, assim, poderia ter um instante de silêncio em tudo aquilo que insiste em doer. A respiração me parece tão pesada, pois, por dentro, se aninha um ninho de minúsculas cobrinhas, bem como para consumir minha vitalidade. Queria eu, ser merecedor de uma felicidade plena, algo sumamente belo e simples, como a brisa do vento, ou uma visão da natureza. Receio que, desde muito, já não há espaço para tal contemplação, porque em meu interior essa tortuosa inquietação me desassossega.
Parece que, neste mundo, onde as coisas acontecem à pleno vapor, e todos já estão cientes do que acontece do outro lado do mundo, em questão de um só impulso, não é mais digno ou possível perder-se em devaneios, dores obscuras ou encantar-se com a natureza. O artista moderno, deve aspirar a imundície do mundo e regurgitá-la, de maneira a escandalizar o outro com a sua própria decadência.