Notas
Estou observando um menino e uma garotinha olhando para a fresta que mostra o mar negro e o céu escuro na praia, é um dos poucos momentos agradáveis que nos oferecem. As crianças do nosso conjunto habitacional pouco se divertem, porque todos sempre estão ocupados demais, e também paranoicos. O lugar que estamos habitando chama-se Zona 9, porque segundo nosso líder, Caçador, existem mais oito conjuntos até chegar aqui. O compartimento onde estamos tem um grande sofá pouco confortável e bastante desgastado, um armário onde estão guardadas algumas ferramentas e um depósito de comida enlatada. Existem muitos quartos como este onde se alojam de três a quatro indivíduos. Todos improvisam um lugar para dormir e recolhem logo quando a claridade aparece pelas frestas nas rachaduras da parede.
4 de nov. de 2013
30 de out. de 2013
Disperdícios
Meu nome é Pedro, achei correto começar com meu nome porque se apresentar é educado. Longe de ser o que sou, Pedro é um nome bastante comum. O cara que me vende pão francês se chama Pedro, o estranho mesmo é eu saber o nome dele, eu não deveria. Quando estava na escola, durante vários anos haviam uns dois Pedro, e na faculdade também foi assim. Meus pais provavelmente não tinham criatividade suficiente para um nome singular, ou então não queriam que eu fosse motivo de piada entre meus colegas.
17 de ago. de 2013
Ego coletivo
Segundo a religião mais difundida no ocidente, Deus criou o homem a sua imagem. Até que ponto tal imagem se reflete a Deus?
15 de ago. de 2013
Ela estava
ali como uma rainha, em meio aquele amontoado de massa gorda sem sentido que
parecia trabalhar para ela como um grande aparelho de servidão sem haver fim.
Fiquei a observá-la e não reparei que a minha volta estavam duas criaturas
muito gordas e enrugadas, seguravam buquês de flores murchas e frutas podres,
seus lábios eram morada de grande quantidade de saliva e uma crosta avermelhada
artificial, que de repente estalou na minha face. A aproximação foi rápida e
impulsiva e não pude me afastar. Vesti um sorriso agridoce mesmo sabendo que
não devia usá-lo naquela situação, mas estava muito perplexa e sem reação
racional. Elas continuavam a caminhar tortas de volta para a Rainha, e eu
conseguia ver que o tufo de cabelos pretos que brotava tímido, não cobria o oco
de suas cabeças.
Carne é pouco para uma Rainha
Não era permitido aproximar-se mais do
que doze passos em direção a ela. Sua terrível figura estava sentada em uma
planta enorme bege claro, e nela borbulhavam buracos roxos e deles vertiam
gotas vermelho vívido. Ninguém nunca pronunciava uma única palavra ali, é
possível que não soubessem falar ou falassem outra língua, ou até mesmo se
comunicassem de outra forma. Todos riam, e eu já não sabia compreender se as risadas
eram sinônimo de prazer verdadeiro ou se eles estavam fazendo isto por
obrigação. Ela também me lançava olhares, seus súditos olhavam para ela e para
mim consecutivamente, esperando que algo acontecesse comigo. Ela olha para
baixo, e mantém fixo seus olhos no chão, neste exato momento as gargalhadas
param. O silêncio é perturbador, mas logo para alívio ou desespero fatal, os
subordinados, homens de oito perninhas, mulheres de cabeça desnuda, pigmeus e
demais seres residentes, começam um coro melancólico de lágrimas e ruidosas
lamúrias. Ela não mais retira seu olhar do chão, e o choro não cessa. O limite caótico
tinha se apresentado naquelas feições velhas que berravam como crianças de
colo. Neste surto eles começam a correr em direção a mim, e pareciam ter a
certeza de que eu possuía algo de valor. Eu tento correr para algum lugar, só
que todos os lados estão cheios deles. E no chão onde a Rainha pousa os olhos
eles me atiram, tento revidar e chutar seus membros, mas eles parecem
insensíveis à dor, os buracos vermelho vertem deles, é sangue, porque sujou-me
diretamente na pele, e tocou as extremidades da minha boca para que eu pudesse
ter tal certeza. Meu peito está em desatino constante e a respiração foge dos
pulmões. Eles cravam as lascas de dentes que brotam de suas mandíbulas, e
rasgam parte da carne de minha perna. Enquanto isso fazem um círculo a minha
volta, dezenas deles sem parar de chorar ou rir. Tocam-me com suas mãozinhas,
como se todos quisessem ter a oportunidade de se aproximar e guardar para si o
contato comigo. E espremem meus braços, peito, pernas, pés como se esperassem
que algo surtisse de mim. Nada surte, e isso parece desapontá-los, mas são
incansáveis e obstinados. Puxam-me pelos cabelos e levam-me para mais perto da
Rainha, me debato em meio a raízes e gordura encrostada pelo chão. Vejo que do
corte em minha perna, começa a nascer um pequeno membro, uma parte qualquer,
poderia ser um pedaço de pele. Eles estavam me convidando para a festa, para
permanecer ali, como um deles. Ou pelo menos, como prêmio para ela.
No chão, perto dos calcanhares rachados da
Rainha, e quase completamente devorada e destituída de atitude, vejo do portal
surgir um homem, como há muito tempo não via, uma espécie de homem comum com um
tom impecável. Trajava um terno preto, calças pretas e sapatos lustrosos. Em
seu olho esquerdo pendia uma lente escura e redonda de óculos, uma parte única.
Ele traz em sua mão uma cesta de maçãs e rosas brancas, puras e saudáveis. Faz
reverência à rainha tuberculosa e aponta para mim. Aparentemente ele quer fazer
uma troca. A rainha volta seus olhos para a cesta, e liberta-me de seu abraço
cósmico.
O Jardineiro
7 de ago. de 2013
Um dia de sol
Tarso Cireal acordava todos os dias excessivamente cedo. A luz brilhava tímida pela janela. Preparava alguns pães velhos e misturava-os com café bem quente. Olhava freneticamente para a parede onde estava um relógio preto e branco que nunca parava de fazer barulho, o movimento dos ponteiros parecia ecoar nos cantos da cabeça. Terminava seu café e corria para pegar todas as coisas que deveria levar. Na saída de seu apartamento mínimo, tinha que lutar para abrir e para fechar uma porta vagabunda que sempre estava inchada. A parada de ônibus não ficava muito longe, talvez por isto sempre saía quase na hora e deveria se apressar. Quando o ônibus chegava ele rapidamente subia, e de instante já ia segurando no primeiro lugar que encontrava, porque o motorista não dava o tempo necessário para os passageiros encontrarem um banco. Banco este que já estava ocupado, eram bancos duplos, todos segurando gordas bundas. Estava tudo certo, no entanto. Tarso havia passado muitas privações ao longo da vida, e agora que tinha um pouco de dinheiro para morar e se alimentar, tudo bem. Em um diferente período olharia para os outros passageiros com desdém. Naquele dia, ele se via refletido neles. Via aquela senhora com sua camisa cheia de flores, e sua calça vermelha que estava tão colada ao corpo que era visível suas imperfeições. Tão maltratada pelo tempo, sem nenhum cuidado. Ao seu lado, um jovem homem com um boné e óculos espelhados, camiseta de time de futebol. Ali, aquelas pessoas que gargalhavam ao fundo, que comentavam sem rodeios todos os detalhes inúteis de suas vidas insignificantes. Todos reclamavam. Tarso não reclamava porque era travado, mas na cabeça dele ele estava furioso. Ele parou onde sobrou um lugar no meio do engarrafamento corpóreo, estava calor. Suas mãos suavam, e ele só conseguia pensar na quantidade de doenças e bactérias que haviam a sua volta. A tosse de um cara quase o matava antecipadamente. No banco mais próximo estava uma garota de aproximadamente vinte anos, que carregava um bebê em seu colo, uma garotinha à sua frente, e do seu lado um menino que não parava de falar um só minuto. Ele falava sobre várias coisas, e esperava que Tarso respondesse algo. Falava o que iria comer quando chegasse em casa, como havia se machucado, sobre o que gostava de brincar. E em certos momentos divaga sobre qualquer coisa. Chegou a dizer "Deus? Deus? Responde Deus" Então olhou sorrindo e completou "Acho que Deus está dormindo"".
23 de jul. de 2013
O único deus é a Morte
Jogam-se palavras no ar, inicia-se um debate. Tuas ideias vem, as minhas vão. Discorda-se. Concorda-se. Eu posso mudar meu caminho pelas tuas palavras, tu podes mudar o teu pelas minhas. Podes morrer pelas minhas, ou viver em fartura. Porém nunca serás eu, e consequentemente nunca eu serei a ti. A maior parte dos transeuntes procuram uma conexão. Se o interesse é falho, há uma completa ausência de sentido em relação aos outros, não há nada para mostrá-los, nenhum iphone ou um artista novo, não há uma redecoração de casa, um sapato bonito, não há um novo estilo de cabelo, uma pessoa acompanhando uma foto. Minha espécie é fortemente interligada por laços de impressão. Tudo depende do que irão pensar destas pessoas, tudo bem se fores racista em 1940. Pois o estilo conduz e o governo permite.
19 de jul. de 2013
As florestas do norte
Por Bekkator
Sou solitário. No que sinto e vejo, sou imensamente solitário. Eu sinto o calor aquecer meu rosto e ele adentra. No maçante amanhecer que chega, não há nada para que eu possa transcender. Se tal sentido é real, eu o desconheço. Lúcido é o que encontra em cada novo brotar de sol uma solução para o dia. Os homens e mulheres que caminham este solo são os mesmos desde a eclosão. São átomos que retornam e jamais morrem. Já fui muitos e muitas. E com certeza carrego cada divagação e cada pergunta, todas as confusões, as dores e todos os desejos. Por tal complexidade perco-me em muitas noções banais que parecem alheias a todos os que rastejam suas patas por esta terra. Vejo-os correr de sua natureza, correr para tão longe no esquecimento. Não os reconheço em sua estática bolha moral. Aparte, faço melodia com outras notas. No instante que a mim parece, esqueceram-se por completo seu declínio, surgem fagulhas como se quisessem escapar discretamente deste âmbito. Os homens mais vis para mim são os que menos controlam tais impulsos, o que há com as senhoras? Será que no círculo terreno em que a natureza comanda indiscriminadamente, há uma espécie de aniquilação sem retorno? Por que permanecem tais pessoas no mais pleno silêncio de ação?
A meus antecessores fiz um juramento. Por honra, nunca haverá em mim o desfalecimento de meus ideais. Não há um caráter predeterminado ao qual esteja de maneira eterna preso. Se não aquele que se modifica de acordo com as impressões. A evolução é uma escadaria íngreme.
Sou solitário. No que sinto e vejo, sou imensamente solitário. Eu sinto o calor aquecer meu rosto e ele adentra. No maçante amanhecer que chega, não há nada para que eu possa transcender. Se tal sentido é real, eu o desconheço. Lúcido é o que encontra em cada novo brotar de sol uma solução para o dia. Os homens e mulheres que caminham este solo são os mesmos desde a eclosão. São átomos que retornam e jamais morrem. Já fui muitos e muitas. E com certeza carrego cada divagação e cada pergunta, todas as confusões, as dores e todos os desejos. Por tal complexidade perco-me em muitas noções banais que parecem alheias a todos os que rastejam suas patas por esta terra. Vejo-os correr de sua natureza, correr para tão longe no esquecimento. Não os reconheço em sua estática bolha moral. Aparte, faço melodia com outras notas. No instante que a mim parece, esqueceram-se por completo seu declínio, surgem fagulhas como se quisessem escapar discretamente deste âmbito. Os homens mais vis para mim são os que menos controlam tais impulsos, o que há com as senhoras? Será que no círculo terreno em que a natureza comanda indiscriminadamente, há uma espécie de aniquilação sem retorno? Por que permanecem tais pessoas no mais pleno silêncio de ação?
A meus antecessores fiz um juramento. Por honra, nunca haverá em mim o desfalecimento de meus ideais. Não há um caráter predeterminado ao qual esteja de maneira eterna preso. Se não aquele que se modifica de acordo com as impressões. A evolução é uma escadaria íngreme.
17 de jul. de 2013
O que você faz para mostrar suas axilas?
Os dias passam em uma gargalhada distante, são bailarinas decoradas que ofuscam os olhos, mas nunca entram na tua cabeça. A fumaça se esvai no ar e os círculos são de imenso esoterismo, são voltas e voltas perdidas no éter. A tv liga, a música liga, a tinta encontra o papel. Esse impulso ridículo de significar algo quando tudo é um insignificante significável demais. A percepção de que tudo se resumiu ao dinheiro, ao prazer passageiro, que todos mentem sem parar. Quando se percebe que tua perdição é banal, sucumbe aos dentes do mundo. Atitudes reflexas. Neurônios espelho. Eu ligo a televisão e essa massiva cultura pop me desgasta. Nada é mais superficial, ninguém tem mais direito de ser individual porque isto se perdeu há muito tempo. Todos tem liberdade demais, nada é privado.
14 de jul. de 2013
O que restou do ódio
Neste corpo habita algo intenso e necrosante, uma das paixões do homem. As paixões não são necessariamente ilusões criadas acerca de outras pessoas, mas sim dóceis e corruptos vícios. Quem não sabe ao certo se expressar, escreve. Escrevem os fracos, os tolos, as mocinhas. Escrevem os doentes, os tristes, os que não sabem se virar de outra forma. Os fortes nunca escrevem, os fortes não se jogam de cabeça, corpo e alma. Os fortes são limiar, nunca subterrâneos. Quando falam suas bocas se mexem e sua arcada se encontra, as línguas estalam. Porém o sangue é frio. E tudo é vazio e no entanto não se necessita nada mais, porque estão satisfeitos em seu próprio e selado zero. Com certeza, sabem escrever, e falar, dançar e entreter se for preciso. Neste mármore queimam os bons e os maus sem distinção, quem ganha corta a cabeça do outro e enfia uma estaca nela, este a expõe como exemplo na sala de estar. Nós somos os ninguém, que querem ser alguém. Em uma corrida incansável pela busca de prazer a todo instante. Há dois polos que dividem as paixões humanas, o prazer e a dor. Também vulgarmente chamados de felicidade ou tristeza/insucesso. Ascensão e queda. E estamos sempre procurando por um e nunca pelo outro. Exceto por alguns raros momentos, quando um pode levar ao seu contrário. Tenho sede. Sede que nunca pode ser saciada. Sede que aflige e atormenta, enfastia.
11 de jul. de 2013
Overdose
Por Bekkator
Os pensamentos são artifícios da mente, o que então a compõe. O cérebro é um amontoado de tripas inválidas sem suas sinapses incansáveis. A mente é um buraco negro, mas nada se perde. É certo que é uma máquina seletiva e descarta de nossa realidade fatos sem importância. Contudo, eles permanecem lá em algum corredor. Somos matéria insignificante sem nossos impulsos nervosos e apenas nossas ideias não são capazes de mudanças significativas na realidade.
Jamais nos conectamos.
Este ideal corpóreo e cerebral nunca acontece. A carne é nula.
É possível ouvir mais de mil vozes desconexas, um turbilhão de novas hipóteses. E mesmo assim, não é difícil encontrar apenas uma, exige esforço e concentração. Sempre estou coletando, absorvendo, digerindo e isto não me transforma naquele que se importa demais. O que me deixa confuso é que penso estar alheio da verdade diária do mundo. Até então de maneira egoísta, pensava que todos se comportavam da mesma maneira que eu, mas sei que não é assim. Talvez esta seja uma das formas que encontrei para não estranhar. Não me sentir um estranho. Sei que todos eles são criaturas complexas e potencialmente iguais umas às outras em suas divagações. O que circunda meu cérebro no momento tem relação com a superficialidade da vida, e sua notória insignificância. Não é equivalente a dizer que estou sentindo vazio existencial. Isto é um dos vários acessórios do cotidiano atual. Até poucos séculos atrás não existia a ideia de indivíduo. Guerras aconteciam frequentemente, e a honra de um homem era medida pelo fato de lutar até conseguir a vitória de seu povo ou morrer lutando por ela. Os milhares que morreram não são reconhecidos hoje, os líderes e tiranos são lembrados. Exatamente pela ausência deste modelo de pensamento, eles morriam por ideiais. A morte não deveria ser um acontecimento absurdo. Somos guiados por três instintos predominantes, estes são: a morte, a reprodução e a sobrevivência. Parece assunto por demais enferrujado, mas sempre vem à tona. Os humanos de hoje vivem a pensar em sua própria morte, e desta forma tem um impulso de fazer muitas coisas antes de esta se consumar. Encontram importâncias onde não existe nada, pois a diferença que uma, duas, ou três mortes fariam é banal. Comparando em escalas biológicas, quanto mais seres humanos morrerem melhor seria a vida neste planeta. Bobagem. Nós nascemos aqui tanto quanto os malditos porcos, os cachorros, os gatos, os alfaces e as bactérias. A guerra de todos os dias. Nunca devemos desligar nossos sentidos desta dimensão. Não devemos pensar pacificamente porque nenhuma outra espécie o faz. As espécies são violentas e buscam tudo para si. Não somos especiais, ou alienígenas e nunca viraríamos espíritos ou migraríamos para o céu. Não somos especiais.
15 de mai. de 2013
Todas as suas verdades são incontestáveis?
Muitos mitos surgiram para explicar ideias misteriosas, dúvidas que fugiam da compreensão de uma espécie que sempre procura uma explicação para todas as bobagens que existem. Para Freud e Jung os mitos tinham caráter inconsciente que revelam desejos profundos do ser humano. Deuses, heróis e vilões são figuras mitológicas do inconsciente humano, assim como estrelas de cinema e da música ou qualquer material que possa ser usado pela mídia como moeda, para suprir os anseios de cada um de superar a própria inexpressividade. No caso, todo o manipulador de informação é em parte maniqueísta, dividindo bem e mal como fronteiras antagonicas que nunca se conectam.
10 de mai. de 2013
Donos da terra
Passos, desconcertos do ébrio, acelera a fádiga e desidrata a sede. Não impede o tolo, dá a chave ao inapto, sustenta a inverdade. Aos cegos e constantemente presos por seus méritos, inabaláveis em seus egos, que constroem diante da sua palavra um grande castelo e nele um trono. Em seus falos e corpos saudáveis sua moral herméticamente selada e canonizada. Bem sucedidos, mentalmente constantes, prezando a sua própria conduta. Julgam e oprimem pois à eles foram dadas todas as graças divinas.
Aqueles que em nenhuma parte de suas existências cometeram erro algum, e os olhares que se extendem logo acima para os menores não encontrar. Que exprimem palavras teatrais e sorrisos simétricos ao deslumbre dos espectadores, bonecos de pano às traças. Pequenos demônios intolerantes que acendem suas tochas e preparam suas fogueiras. Uma pré concebida ideia, definições alheias e porcamente analisadas. Que decidem por suas próprias mãos e línguas ceifar a cabeça de um cara qualquer. Dizer a ele que ele não importa e não basta. Que seu fim seria contentamento e haveria celebração. Que sua dor é uma fraqueza, um erro de conduta, que sua dor o faz um idiota. Faça um bem e ninguém notará, faça algo ruim e incendiará a platéia. A regra geral é a de não fugir aos parâmetros, estar dentro e embalado para o comércio, ser parte da imundície.
1 de mai. de 2013
I.
Bebê-lo impossível, cheirá-lo não posso
O que observas tão cálido?
Um passageiro amigável, moeda de troca
A cada beco, um rato, um bueiro
O que te rouba furtivamente um segredo
Também dá teu corpo ao açougueiro
Que espanca e trai o templo
Do menino que outrora
Tinha Luther King como exemplo
E agora,
Só vilões trazem vingança
Trás este sorriso de criança
E passeia ele pela rua
Acorda essa morta vizinhança
Toda noite uma conta a pagar
De ossos quebrados dentro e fora do bar
O cancêr queima e destrói
Aquele que já foi seu herói
Só espera outro dia acabar
II.
Ultimamente,
Falei com uns amigos
Alguns com belos nomes
Estrangeiros
Barkov
Svidrigáilov
Gregor Samsa
Eles eram Sexus
Nexus
Plexus
E um tal de Donatien
Alphonse
François
Borbulha
Algumas velhas senhoras
Uma mocinha cheia de vitalidade
E se me permite tal maldade
Pouco me importa nas duas
Qual seja a idade
A mocinha pode ser um garoto
Mesmo porque
Não sei diferir equino de equidade
Na alcova outrora cheia de espinhos
E ninhos de pragas e redemoinhos
Ainda reside renascida em Lilith
e morta em vênus
Alguma farpa,
Ou escuro de um quarto
Em mordidas
E galinhas
Novas feridas
Arranhado
Na bicicleta
Não chora
Seu dialéto
É o que carrega
No silêncio
III.
Gargalhada
Na morte, na perda, na dor
Apenas porque não se adequa a tal estado
A sua alegria enfastia
Tal mentira eu não me importo
Pode ser proferida a todo canto
Mas na cara de alguém
Que a abriga
É piada
29 de abr. de 2013
Na estrada
Há gosto de morte
Eu sou um fantoche de seus erros
Penso que há uma solução
E recupero com muita dedicação minha rotina
Essencialmente detalhada, quase perfeita
Me movimento como um artrópode
De um hemisfério à outro
E retorno ao ponto de partida
Nas falhas de outra pessoa
A adaptação é uma das melhores características
Uma dádiva incrível se bem direcionada
Como um belo vestido de festa
Que deve ser usado dia após dia
E nunca estar amassado
A estrada é escura, nenhuma luz ou casa
A viagem é longa
O espírito que paira nela é silencioso
Eu sou um fantoche de seus erros
Penso que há uma solução
E recupero com muita dedicação minha rotina
Essencialmente detalhada, quase perfeita
Me movimento como um artrópode
De um hemisfério à outro
E retorno ao ponto de partida
Nas falhas de outra pessoa
A adaptação é uma das melhores características
Uma dádiva incrível se bem direcionada
Como um belo vestido de festa
Que deve ser usado dia após dia
E nunca estar amassado
A estrada é escura, nenhuma luz ou casa
A viagem é longa
O espírito que paira nela é silencioso
28 de abr. de 2013
Bóris
Naquela rua sempre escurecia mais cedo, uma luz azulada e tal luz podia drenar todas as outras energias. Às vezes um lugar pode matá-lo aos poucos, com suas estradas empoeiradas cheias de ossos. Milhas em círculos, a fé é algo dissolúvel. Três xícaras podem me manter acordada com esforço, temo que esse esforço se desligue como um interruptor. Isto não é uma criação, a existência é involuntária. Fé não é apenas uma doutrina, é certa crença de que algo pode seguir um caminho correto. Nada pode ser feito. Os olhos ao serem vistos não reconhecem os que vêem.
Engana ao pensar que nada se repete, sucumbe em eterna repetição. O tempo é a repetição de seus ponteiros, de seus números, de fatos. A única coisa que muda é a sequência de situações, elas se adequam a cada passo que o indivíduo dá. Curvas erradas geralmente o levam a destinos insólitos. Chega rapidamente sem permissão, e resta, apenas resta um vago momento muito perdido nas entrelinhas de uma cadeia de reações, e este momento, ele nunca retorna.
22 de abr. de 2013
21 de abr. de 2013
20 de abr. de 2013
Crime, Castigo e Indulto
Estou descendo uma rua de São Petersburgo, o frio faz com que minha respiração quente vaporize. Minha pele está tão gelada quanto a de um recém falecido, ambas as mãos estão livres. Carrego dentro de minha mochila um exemplar de Crime e Castigo. Meu nome é Raskólnikov e desde que ouvi falar que fizeram um livro sobre mim não pude descansar até o conseguir. Muitas pessoas estão tentando ganhar a vida nesta cidade, algumas apelam para atitudes moralmente reprováveis, eu sou uma delas. Porém após conhecer Sonietchka notei que não somos responsáveis pelas tragédias que permeiam nossas vidas. Acredito que quem escreveu a obra que venho trazendo comigo observou-me por muito tempo e acabou por perder-se após eu ter ido para Sibéria, trazendo fatos que não condiziam com minha atual realidade.
A cadeia foi o lugar mais sujo que já estive, e já estive em lugares extremamente degradantes. Ao menos quando estava fraco e enraivecido fugia para uma taberna onde um copo de aguardente dava-me as graças do conforto. Lá na Sibéria só pude pensar em uma única coisa, em Sonia. A princípio tudo o que conseguia imaginar era em sair daquele buraco putrefo e construir uma casa, ter filhos. Ter a liberdade de ser um homem perdoado pela lei e amado pela mulher que havia me salvado. Ela foi visitar-me durante um longo e penoso ano, onde me ditava evangelho e essas baboseiras. Já havia me acostumado às grades e muralhas que se erguiam a minha volta, para encontrar o sorriso da redenção que esperava para me ver.
Belo ano foi, eu cheguei a crer que poderia passar o resto da minha pena daquele jeito. Não me oporia se ela estivesse lá, sempre para que o amor tivesse um lugar para crescer. Quando o amor não encontra um solo propício ele morre aos poucos e dá lugar a algo que não precisa de lugar algum para existir, o mal em essência pura. A solidão que encontrei nas manhãs, tardes e noites no pior lugar que um homem pode estar, Sonia não poderia imaginar. Recebi uma notícia por minha irmã, de que Sonia havia voltado a usar boletim amarelo. Isso partiu-me, por dias sem fim vaguei vazio pelos cantos da cadeia. Nada ou ninguém por mim rezava, todos odiavam um homem que corrompeu os desígnios de Deus.
31 de mar. de 2013
27 de mar. de 2013
O Jardineiro
Estava voltando para a minha casa numa dessas tardes frescas de final de verão, todas as formigas se recolhiam sabe se lá para onde, até agora me pergunto se as formigas dormem. Os filhos delas saindo das escolas com sorrisos incríveis de satisfação que a maioria das crianças parece ter. O vermelho do sinal sempre interrompendo meus passos enquanto me jogo de esquina à esquina na esperança de não morrer atropelado por um veículo. Logo pela manhã acordei com o barulho do carrinho de alto-falantes, divulgando algo que eu preciso ter, e dizia claramente quase como pra mim, acho que é o primeiro amigo que eu tenho nos últimos meses "eu sei o que você precisa" era a mensagem, e não há jeito de eu perder essa oportunidade. Nada me desliga de mim, ou pelo menos essa voz teatral, que sussurra que eu sou um nada no meio desse vai-e-vem de corpos modelados. Antes pensava que algo precisava me distinguir, eu precisava de algo mais saboroso, mais fluorescente, algo em oferta, eu aprendi com meu amigo, do carrinho de alto-falantes. A minha vida inteira fui alimentado por inverdades, hoje eu consigo observar que vivo num mundo diferente do que planejava viver. Tenho tomado a completa certeza de que vivem melhor aqueles que nunca pararam pra pensar, que não querem mudar nada. Eu viveria em harmonia se minha única ambição fosse a de ganhar dinheiro. Eu trabalharia arduamente por isso, faria o que teria de fazer, seria corrupto se precisasse porque jamais desistiria de algo que quero.
25 de mar. de 2013
Rouge Parapluie Carnage
Ela enfeita meus olhos, dança de um lado para outro. Eu quase posso sentir seu cheiro invadir. Distante seus passos se afastam, molhados na lama. Este seria um longo passeio e ao olhar para cima encontraria o cinza de nuvens consternadas, logo embaixo o silêncio de quem fugiu. Entretanto, a surpresa seria uma menina coberta por um guarda-chuva vermelho. O assombro que causou a visão de cor tão enérgica em quem de fastio estava consumido, avivou de repente uma espécie de chama. Fui drenado por uma força convulsiva de modo a me atropelar de desespero. Um anseio adentrou o cerne da minha carne e meu fluxo sanguíneo acelerou. O contraste vívido entre amarelo e vermelho numa paisagem acrômica. O amarelo provinha de sua capa, delicadamente cobrindo o pequeno corpo que residia em seu interior. Quase pude esquecer o que esperava por mim. Há faíscas de redenção que eclodem repentinas e lhe presenteiam falsas possibilidades. E brotava no canto da minha boca uma fenda para minha arcada dentária, ela desatinava meus sentidos mais profundos. Eu estava fora de mim na realidade paradisíaca daquele ser. E naquele ímpeto a chuva desce a rua e nela desce ela, eu não a vejo mais. Nenhum outro temporal consumirá o tempo.
24 de mar. de 2013
Wolffschanze, Toca do Lobo
(trechos sem ordem)
Costumes são como manias, há coisas em que repetidas surtem efeitos interessantes, mas a repetição é monótona e nos impede de abrir novos horizontes.
Somos as nossas escolhas, e não a de outras pessoas. Então fazer
isto sem consentimento delas mesmas é como abdicar do livre arbítrio.
A questão não é
conformismo ou preguiça, é para nos mantermos afastados da influência desnecessária, descansar das buzinas frenéticas do trânsito lotado e cansativo.
Dos vendedores, dos religiosos na porta.
Não há ninguém que se
importe com quem anda no submundo das ruas, não há ninguém que sequer pague a eles o álcool que consomem, eles
mesmos tem de esmolarem incansavelmente até conseguirem o pequeno saldo que
custa sua bebida. Todos irão ignorar a
face pobre e destruída da civilização, isto surge como um borrão preto
de sujeira, da qual precisa ser varrida para os hemisférios menos acessíveis do
nosso campo de visão.
Ghosts I-IV
Tudo o que fazemos serve apenas para cobrir a parcela de tempo que nos sobra quando realizamos nossas funções fisiológicas. Sendo assim, qualquer ideia que nós temos e adotamos como centro e algo de extrema importância para existência não passa de um acessório de entretenimento. Até mesmo a influência das emoções no conceito inteiro, ao observar claramente é apenas mais uma das manifestações de nosso íntimo com intenção de transformar nossa realidade em algo mais complexo e curioso, digno de ser descoberto. Não que isso seja proposital logo que um ser pequeno não entende certas coisas e não as planeja. Talvez a movimentação ao redor e a tamanha importância a qual o seu círculo social dá a moral, inteligência, desenvolvimento e educação vão formando um caráter semelhante aos demais. E resta ainda em todo ser humano essa complexidade projetada, como se houvesse um quadro onde há uma resposta grande e claramente escrita, porém é borrada. Porque, imagine viver em um mundo onde nada faz sentido verdadeiro, ou é fácil demais até que se torna cansativa. Assim como o homem cria suas ilusões, a natureza tem suas vertentes. Cada espécie por mais aparentemente igual tem suas diferenças essenciais. O ser humano é apenas um projeto de animal. Esse animal torna-se escravo de objetos, dedica tempo, trabalho, sentimentos a coisas que jamais poderão retribuir-lhe nada além de facilidade e diversão. Onde cada atitude determina um padrão de comportamento. Em meio a isso ou nadamos em harmonia com a maré, ou afundamos. Temos mais uma vez que nos defendermos, agora não apenas dos ferozes animais, temos que defendermos de nossas próprias mentes turbulentas, de nossos desejos encobertos pelas enraizadas peças morais de nosso teatro, defendermos de ataques que nos aflingem física ou mentalmente por parte de nossos "iguais", cada um pensando o tempo inteiro, e criando sem parar. Nossas defesas que antes eram dentes e garras, são agora teóricas como o resto das coisas.
18 de mar. de 2013
Cadentes, Decadentes, Dentes. (livro)
Era agosto, o inverno ainda se fazia presente mas a imagem que fervia em meus olhos era de um teto morto e sem alma. Fluía sob tudo uma espécie de cobertor cinza, sem voz. Meus braços estavam tão fracos que eu não poderia nem mesmo equilibrar o peso do meu próprio corpo para me levantar. Uma música soava ao fundo... Quem havia ligado esse som eu não sabia. Não era um som que havia sido ligado. Era o som da própria natureza morta. A natureza que consome a tudo, a natureza que transforma. Eu podia notar que as folhas secas se quebravam lá, fora daqui. Aqui não há natureza. Aqui há algo que não se transforma. Está sendo drenado pelo tempo, e não virá a ser nada. Mas fora daqui, algo parecia dançar e zunir com força e vitalidade.
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