Os dias passam em uma gargalhada distante, são bailarinas decoradas que ofuscam os olhos, mas nunca entram na tua cabeça. A fumaça se esvai no ar e os círculos são de imenso esoterismo, são voltas e voltas perdidas no éter. A tv liga, a música liga, a tinta encontra o papel. Esse impulso ridículo de significar algo quando tudo é um insignificante significável demais. A percepção de que tudo se resumiu ao dinheiro, ao prazer passageiro, que todos mentem sem parar. Quando se percebe que tua perdição é banal, sucumbe aos dentes do mundo. Atitudes reflexas. Neurônios espelho. Eu ligo a televisão e essa massiva cultura pop me desgasta. Nada é mais superficial, ninguém tem mais direito de ser individual porque isto se perdeu há muito tempo. Todos tem liberdade demais, nada é privado.
São todos os ventríloquos sem cara nem futuro, minha geração é uma bosta. Até seus protestos são moda, até sua raiva é moda, até sua dor é moda. Até a moda saiu de moda. Eles andam nas ruas e nas festas como se fossem deuses, como se todos precisassem de suas presenças para alguma coisa se não o reembolso do evento. Todos estão entediados demais, todos precisam de atenção demais. Até a brisa fresca da praia perdeu-se num programa de fotos, as feições tem de exibir as malditas caras de felicidade e contentamento, e muita maquiagem e muito rótulo. Nunca houve um momento em que alguém fez algo verdadeiro, algo carnal e que saísse direto do peito. Ninguém nunca vomitou tão intenso plasma vital que gerasse efeito. Nossas mãos encontram o rosto, com a expressão de que estamos desapontados com o que vemos, os cabelos caem, surgem olheiras. E você nem percebe o que está acontecendo. Não falo de verdade com minha mãe faz algum tempo, ela parece estar desconfortável e isso é notável, mas só para quem presta atenção. Afinal, este é o mundo dos adultos, não mais o mundo permeado de ilusões. Adulto também sente, também rói, também precisa. Só que agora ela tem que se mostrar menos quebrável. Todos devem se mostrar indestrutíveis porque ao simples sinal de que tu daria uma boa presa aos leões sociais e estás derrotado. Sabe que hoje prefiro aquela menina de longos cabelos maltratados, sem nenhuma tintura, os olhos não me importa a cor, mas que tenham intensidade e que possam devorar, os dentes podem ser tortos e separados, pode ser até gorda! E os homens que tenham a delicadeza e sutileza de serem reais, de não se importarem com sua prole masculina. De conseguirem ser sensíveis de sua maneira, não da maneira feminina. Não precisamos de mais mulheres, ou de homens cheios de pelos que precisam provar algo. Sei que todos somos guiados por nossos desejos, mas de alguma maneira meu desejo é excêntrico, gosto de coisas estranhas ou pateticamente comuns. Às vezes, fico com medo de nunca poder me expressar, sem ser confundida com todos os outros. Isto logo passa quando se percebe que neste incrível mundo cybercaústico, nem tudo precisa ser mostrado, nem tudo precisa do glamour. E que a realidade existente é apenas uma, a do indivíduo em si e não de seus espectadores.