31 de mar. de 2013
27 de mar. de 2013
O Jardineiro
Estava voltando para a minha casa numa dessas tardes frescas de final de verão, todas as formigas se recolhiam sabe se lá para onde, até agora me pergunto se as formigas dormem. Os filhos delas saindo das escolas com sorrisos incríveis de satisfação que a maioria das crianças parece ter. O vermelho do sinal sempre interrompendo meus passos enquanto me jogo de esquina à esquina na esperança de não morrer atropelado por um veículo. Logo pela manhã acordei com o barulho do carrinho de alto-falantes, divulgando algo que eu preciso ter, e dizia claramente quase como pra mim, acho que é o primeiro amigo que eu tenho nos últimos meses "eu sei o que você precisa" era a mensagem, e não há jeito de eu perder essa oportunidade. Nada me desliga de mim, ou pelo menos essa voz teatral, que sussurra que eu sou um nada no meio desse vai-e-vem de corpos modelados. Antes pensava que algo precisava me distinguir, eu precisava de algo mais saboroso, mais fluorescente, algo em oferta, eu aprendi com meu amigo, do carrinho de alto-falantes. A minha vida inteira fui alimentado por inverdades, hoje eu consigo observar que vivo num mundo diferente do que planejava viver. Tenho tomado a completa certeza de que vivem melhor aqueles que nunca pararam pra pensar, que não querem mudar nada. Eu viveria em harmonia se minha única ambição fosse a de ganhar dinheiro. Eu trabalharia arduamente por isso, faria o que teria de fazer, seria corrupto se precisasse porque jamais desistiria de algo que quero.
25 de mar. de 2013
Rouge Parapluie Carnage
Ela enfeita meus olhos, dança de um lado para outro. Eu quase posso sentir seu cheiro invadir. Distante seus passos se afastam, molhados na lama. Este seria um longo passeio e ao olhar para cima encontraria o cinza de nuvens consternadas, logo embaixo o silêncio de quem fugiu. Entretanto, a surpresa seria uma menina coberta por um guarda-chuva vermelho. O assombro que causou a visão de cor tão enérgica em quem de fastio estava consumido, avivou de repente uma espécie de chama. Fui drenado por uma força convulsiva de modo a me atropelar de desespero. Um anseio adentrou o cerne da minha carne e meu fluxo sanguíneo acelerou. O contraste vívido entre amarelo e vermelho numa paisagem acrômica. O amarelo provinha de sua capa, delicadamente cobrindo o pequeno corpo que residia em seu interior. Quase pude esquecer o que esperava por mim. Há faíscas de redenção que eclodem repentinas e lhe presenteiam falsas possibilidades. E brotava no canto da minha boca uma fenda para minha arcada dentária, ela desatinava meus sentidos mais profundos. Eu estava fora de mim na realidade paradisíaca daquele ser. E naquele ímpeto a chuva desce a rua e nela desce ela, eu não a vejo mais. Nenhum outro temporal consumirá o tempo.
24 de mar. de 2013
Wolffschanze, Toca do Lobo
(trechos sem ordem)
Costumes são como manias, há coisas em que repetidas surtem efeitos interessantes, mas a repetição é monótona e nos impede de abrir novos horizontes.
Somos as nossas escolhas, e não a de outras pessoas. Então fazer
isto sem consentimento delas mesmas é como abdicar do livre arbítrio.
A questão não é
conformismo ou preguiça, é para nos mantermos afastados da influência desnecessária, descansar das buzinas frenéticas do trânsito lotado e cansativo.
Dos vendedores, dos religiosos na porta.
Não há ninguém que se
importe com quem anda no submundo das ruas, não há ninguém que sequer pague a eles o álcool que consomem, eles
mesmos tem de esmolarem incansavelmente até conseguirem o pequeno saldo que
custa sua bebida. Todos irão ignorar a
face pobre e destruída da civilização, isto surge como um borrão preto
de sujeira, da qual precisa ser varrida para os hemisférios menos acessíveis do
nosso campo de visão.
Ghosts I-IV
Tudo o que fazemos serve apenas para cobrir a parcela de tempo que nos sobra quando realizamos nossas funções fisiológicas. Sendo assim, qualquer ideia que nós temos e adotamos como centro e algo de extrema importância para existência não passa de um acessório de entretenimento. Até mesmo a influência das emoções no conceito inteiro, ao observar claramente é apenas mais uma das manifestações de nosso íntimo com intenção de transformar nossa realidade em algo mais complexo e curioso, digno de ser descoberto. Não que isso seja proposital logo que um ser pequeno não entende certas coisas e não as planeja. Talvez a movimentação ao redor e a tamanha importância a qual o seu círculo social dá a moral, inteligência, desenvolvimento e educação vão formando um caráter semelhante aos demais. E resta ainda em todo ser humano essa complexidade projetada, como se houvesse um quadro onde há uma resposta grande e claramente escrita, porém é borrada. Porque, imagine viver em um mundo onde nada faz sentido verdadeiro, ou é fácil demais até que se torna cansativa. Assim como o homem cria suas ilusões, a natureza tem suas vertentes. Cada espécie por mais aparentemente igual tem suas diferenças essenciais. O ser humano é apenas um projeto de animal. Esse animal torna-se escravo de objetos, dedica tempo, trabalho, sentimentos a coisas que jamais poderão retribuir-lhe nada além de facilidade e diversão. Onde cada atitude determina um padrão de comportamento. Em meio a isso ou nadamos em harmonia com a maré, ou afundamos. Temos mais uma vez que nos defendermos, agora não apenas dos ferozes animais, temos que defendermos de nossas próprias mentes turbulentas, de nossos desejos encobertos pelas enraizadas peças morais de nosso teatro, defendermos de ataques que nos aflingem física ou mentalmente por parte de nossos "iguais", cada um pensando o tempo inteiro, e criando sem parar. Nossas defesas que antes eram dentes e garras, são agora teóricas como o resto das coisas.
18 de mar. de 2013
Cadentes, Decadentes, Dentes. (livro)
Era agosto, o inverno ainda se fazia presente mas a imagem que fervia em meus olhos era de um teto morto e sem alma. Fluía sob tudo uma espécie de cobertor cinza, sem voz. Meus braços estavam tão fracos que eu não poderia nem mesmo equilibrar o peso do meu próprio corpo para me levantar. Uma música soava ao fundo... Quem havia ligado esse som eu não sabia. Não era um som que havia sido ligado. Era o som da própria natureza morta. A natureza que consome a tudo, a natureza que transforma. Eu podia notar que as folhas secas se quebravam lá, fora daqui. Aqui não há natureza. Aqui há algo que não se transforma. Está sendo drenado pelo tempo, e não virá a ser nada. Mas fora daqui, algo parecia dançar e zunir com força e vitalidade.
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