17 de ago. de 2013

Ego coletivo

    Segundo a religião mais difundida no ocidente, Deus criou o homem a sua imagem. Até que ponto tal imagem se reflete a Deus? 

15 de ago. de 2013

Ela estava ali como uma rainha, em meio aquele amontoado de massa gorda sem sentido que parecia trabalhar para ela como um grande aparelho de servidão sem haver fim. Fiquei a observá-la e não reparei que a minha volta estavam duas criaturas muito gordas e enrugadas, seguravam buquês de flores murchas e frutas podres, seus lábios eram morada de grande quantidade de saliva e uma crosta avermelhada artificial, que de repente estalou na minha face. A aproximação foi rápida e impulsiva e não pude me afastar. Vesti um sorriso agridoce mesmo sabendo que não devia usá-lo naquela situação, mas estava muito perplexa e sem reação racional. Elas continuavam a caminhar tortas de volta para a Rainha, e eu conseguia ver que o tufo de cabelos pretos que brotava tímido, não cobria o oco de suas cabeças.

                                     Carne é pouco para uma Rainha

     Não era permitido aproximar-se mais do que doze passos em direção a ela. Sua terrível figura estava sentada em uma planta enorme bege claro, e nela borbulhavam buracos roxos e deles vertiam gotas vermelho vívido. Ninguém nunca pronunciava uma única palavra ali, é possível que não soubessem falar ou falassem outra língua, ou até mesmo se comunicassem de outra forma. Todos riam, e eu já não sabia compreender se as risadas eram sinônimo de prazer verdadeiro ou se eles estavam fazendo isto por obrigação. Ela também me lançava olhares, seus súditos olhavam para ela e para mim consecutivamente, esperando que algo acontecesse comigo. Ela olha para baixo, e mantém fixo seus olhos no chão, neste exato momento as gargalhadas param. O silêncio é perturbador, mas logo para alívio ou desespero fatal, os subordinados, homens de oito perninhas, mulheres de cabeça desnuda, pigmeus e demais seres residentes, começam um coro melancólico de lágrimas e ruidosas lamúrias. Ela não mais retira seu olhar do chão, e o choro não cessa. O limite caótico tinha se apresentado naquelas feições velhas que berravam como crianças de colo. Neste surto eles começam a correr em direção a mim, e pareciam ter a certeza de que eu possuía algo de valor. Eu tento correr para algum lugar, só que todos os lados estão cheios deles. E no chão onde a Rainha pousa os olhos eles me atiram, tento revidar e chutar seus membros, mas eles parecem insensíveis à dor, os buracos vermelho vertem deles, é sangue, porque sujou-me diretamente na pele, e tocou as extremidades da minha boca para que eu pudesse ter tal certeza. Meu peito está em desatino constante e a respiração foge dos pulmões. Eles cravam as lascas de dentes que brotam de suas mandíbulas, e rasgam parte da carne de minha perna. Enquanto isso fazem um círculo a minha volta, dezenas deles sem parar de chorar ou rir. Tocam-me com suas mãozinhas, como se todos quisessem ter a oportunidade de se aproximar e guardar para si o contato comigo. E espremem meus braços, peito, pernas, pés como se esperassem que algo surtisse de mim. Nada surte, e isso parece desapontá-los, mas são incansáveis e obstinados. Puxam-me pelos cabelos e levam-me para mais perto da Rainha, me debato em meio a raízes e gordura encrostada pelo chão. Vejo que do corte em minha perna, começa a nascer um pequeno membro, uma parte qualquer, poderia ser um pedaço de pele. Eles estavam me convidando para a festa, para permanecer ali, como um deles. Ou pelo menos, como prêmio para ela.
    No chão, perto dos calcanhares rachados da Rainha, e quase completamente devorada e destituída de atitude, vejo do portal surgir um homem, como há muito tempo não via, uma espécie de homem comum com um tom impecável. Trajava um terno preto, calças pretas e sapatos lustrosos. Em seu olho esquerdo pendia uma lente escura e redonda de óculos, uma parte única. Ele traz em sua mão uma cesta de maçãs e rosas brancas, puras e saudáveis. Faz reverência à rainha tuberculosa e aponta para mim. Aparentemente ele quer fazer uma troca. A rainha volta seus olhos para a cesta, e liberta-me de seu abraço cósmico.


 O Jardineiro


7 de ago. de 2013

Um dia de sol

    Tarso Cireal acordava todos os dias excessivamente cedo. A luz brilhava tímida pela janela. Preparava alguns pães velhos e misturava-os com café bem quente. Olhava freneticamente para a parede onde estava um relógio preto e branco que nunca parava de fazer barulho, o movimento dos ponteiros parecia ecoar nos cantos da cabeça. Terminava seu café e corria para pegar todas as coisas que deveria levar. Na saída de seu apartamento mínimo, tinha que lutar para abrir e para fechar uma porta vagabunda que sempre estava inchada. A parada de ônibus não ficava muito longe, talvez por isto sempre saía quase na hora e deveria se apressar. Quando o ônibus chegava ele rapidamente subia, e de instante já ia segurando no primeiro lugar que encontrava, porque o motorista não dava o tempo necessário para os passageiros encontrarem um banco. Banco este que já estava ocupado, eram bancos duplos, todos segurando gordas bundas. Estava tudo certo, no entanto. Tarso havia passado muitas privações ao longo da vida, e agora que tinha um pouco de dinheiro para morar e se alimentar, tudo bem. Em um diferente período olharia para os outros passageiros com desdém. Naquele dia, ele se via refletido neles. Via aquela senhora com sua camisa cheia de flores, e sua calça vermelha que estava tão colada ao corpo que era visível suas imperfeições. Tão maltratada pelo tempo, sem nenhum cuidado. Ao seu lado, um jovem homem com um boné e óculos espelhados, camiseta de time de futebol. Ali, aquelas pessoas que gargalhavam ao fundo, que comentavam sem rodeios  todos os detalhes inúteis de suas vidas insignificantes. Todos reclamavam. Tarso não reclamava porque era travado, mas na cabeça dele ele estava furioso. Ele parou onde sobrou um lugar no meio do engarrafamento corpóreo, estava calor. Suas mãos suavam, e ele só conseguia pensar na quantidade de doenças e bactérias que haviam a sua volta. A tosse de um cara quase o matava antecipadamente. No banco mais próximo estava uma garota de aproximadamente vinte anos, que carregava um bebê em seu colo, uma garotinha à sua frente, e do seu lado um menino que não parava de falar um só minuto. Ele falava sobre várias coisas, e esperava que Tarso respondesse algo. Falava o que iria comer quando chegasse em casa, como havia se machucado, sobre o que gostava de brincar. E em certos momentos divaga sobre qualquer coisa. Chegou a dizer "Deus? Deus? Responde Deus" Então olhou sorrindo e completou "Acho que Deus está dormindo"".