7 de ago. de 2013
Um dia de sol
Tarso Cireal acordava todos os dias excessivamente cedo. A luz brilhava tímida pela janela. Preparava alguns pães velhos e misturava-os com café bem quente. Olhava freneticamente para a parede onde estava um relógio preto e branco que nunca parava de fazer barulho, o movimento dos ponteiros parecia ecoar nos cantos da cabeça. Terminava seu café e corria para pegar todas as coisas que deveria levar. Na saída de seu apartamento mínimo, tinha que lutar para abrir e para fechar uma porta vagabunda que sempre estava inchada. A parada de ônibus não ficava muito longe, talvez por isto sempre saía quase na hora e deveria se apressar. Quando o ônibus chegava ele rapidamente subia, e de instante já ia segurando no primeiro lugar que encontrava, porque o motorista não dava o tempo necessário para os passageiros encontrarem um banco. Banco este que já estava ocupado, eram bancos duplos, todos segurando gordas bundas. Estava tudo certo, no entanto. Tarso havia passado muitas privações ao longo da vida, e agora que tinha um pouco de dinheiro para morar e se alimentar, tudo bem. Em um diferente período olharia para os outros passageiros com desdém. Naquele dia, ele se via refletido neles. Via aquela senhora com sua camisa cheia de flores, e sua calça vermelha que estava tão colada ao corpo que era visível suas imperfeições. Tão maltratada pelo tempo, sem nenhum cuidado. Ao seu lado, um jovem homem com um boné e óculos espelhados, camiseta de time de futebol. Ali, aquelas pessoas que gargalhavam ao fundo, que comentavam sem rodeios todos os detalhes inúteis de suas vidas insignificantes. Todos reclamavam. Tarso não reclamava porque era travado, mas na cabeça dele ele estava furioso. Ele parou onde sobrou um lugar no meio do engarrafamento corpóreo, estava calor. Suas mãos suavam, e ele só conseguia pensar na quantidade de doenças e bactérias que haviam a sua volta. A tosse de um cara quase o matava antecipadamente. No banco mais próximo estava uma garota de aproximadamente vinte anos, que carregava um bebê em seu colo, uma garotinha à sua frente, e do seu lado um menino que não parava de falar um só minuto. Ele falava sobre várias coisas, e esperava que Tarso respondesse algo. Falava o que iria comer quando chegasse em casa, como havia se machucado, sobre o que gostava de brincar. E em certos momentos divaga sobre qualquer coisa. Chegou a dizer "Deus? Deus? Responde Deus" Então olhou sorrindo e completou "Acho que Deus está dormindo"".