Ela estava
ali como uma rainha, em meio aquele amontoado de massa gorda sem sentido que
parecia trabalhar para ela como um grande aparelho de servidão sem haver fim.
Fiquei a observá-la e não reparei que a minha volta estavam duas criaturas
muito gordas e enrugadas, seguravam buquês de flores murchas e frutas podres,
seus lábios eram morada de grande quantidade de saliva e uma crosta avermelhada
artificial, que de repente estalou na minha face. A aproximação foi rápida e
impulsiva e não pude me afastar. Vesti um sorriso agridoce mesmo sabendo que
não devia usá-lo naquela situação, mas estava muito perplexa e sem reação
racional. Elas continuavam a caminhar tortas de volta para a Rainha, e eu
conseguia ver que o tufo de cabelos pretos que brotava tímido, não cobria o oco
de suas cabeças.
Carne é pouco para uma Rainha
Não era permitido aproximar-se mais do
que doze passos em direção a ela. Sua terrível figura estava sentada em uma
planta enorme bege claro, e nela borbulhavam buracos roxos e deles vertiam
gotas vermelho vívido. Ninguém nunca pronunciava uma única palavra ali, é
possível que não soubessem falar ou falassem outra língua, ou até mesmo se
comunicassem de outra forma. Todos riam, e eu já não sabia compreender se as risadas
eram sinônimo de prazer verdadeiro ou se eles estavam fazendo isto por
obrigação. Ela também me lançava olhares, seus súditos olhavam para ela e para
mim consecutivamente, esperando que algo acontecesse comigo. Ela olha para
baixo, e mantém fixo seus olhos no chão, neste exato momento as gargalhadas
param. O silêncio é perturbador, mas logo para alívio ou desespero fatal, os
subordinados, homens de oito perninhas, mulheres de cabeça desnuda, pigmeus e
demais seres residentes, começam um coro melancólico de lágrimas e ruidosas
lamúrias. Ela não mais retira seu olhar do chão, e o choro não cessa. O limite caótico
tinha se apresentado naquelas feições velhas que berravam como crianças de
colo. Neste surto eles começam a correr em direção a mim, e pareciam ter a
certeza de que eu possuía algo de valor. Eu tento correr para algum lugar, só
que todos os lados estão cheios deles. E no chão onde a Rainha pousa os olhos
eles me atiram, tento revidar e chutar seus membros, mas eles parecem
insensíveis à dor, os buracos vermelho vertem deles, é sangue, porque sujou-me
diretamente na pele, e tocou as extremidades da minha boca para que eu pudesse
ter tal certeza. Meu peito está em desatino constante e a respiração foge dos
pulmões. Eles cravam as lascas de dentes que brotam de suas mandíbulas, e
rasgam parte da carne de minha perna. Enquanto isso fazem um círculo a minha
volta, dezenas deles sem parar de chorar ou rir. Tocam-me com suas mãozinhas,
como se todos quisessem ter a oportunidade de se aproximar e guardar para si o
contato comigo. E espremem meus braços, peito, pernas, pés como se esperassem
que algo surtisse de mim. Nada surte, e isso parece desapontá-los, mas são
incansáveis e obstinados. Puxam-me pelos cabelos e levam-me para mais perto da
Rainha, me debato em meio a raízes e gordura encrostada pelo chão. Vejo que do
corte em minha perna, começa a nascer um pequeno membro, uma parte qualquer,
poderia ser um pedaço de pele. Eles estavam me convidando para a festa, para
permanecer ali, como um deles. Ou pelo menos, como prêmio para ela.
No chão, perto dos calcanhares rachados da
Rainha, e quase completamente devorada e destituída de atitude, vejo do portal
surgir um homem, como há muito tempo não via, uma espécie de homem comum com um
tom impecável. Trajava um terno preto, calças pretas e sapatos lustrosos. Em
seu olho esquerdo pendia uma lente escura e redonda de óculos, uma parte única.
Ele traz em sua mão uma cesta de maçãs e rosas brancas, puras e saudáveis. Faz
reverência à rainha tuberculosa e aponta para mim. Aparentemente ele quer fazer
uma troca. A rainha volta seus olhos para a cesta, e liberta-me de seu abraço
cósmico.
O Jardineiro