23 de jul. de 2013

O único deus é a Morte

    Jogam-se palavras no ar, inicia-se um debate. Tuas ideias vem, as minhas vão. Discorda-se. Concorda-se. Eu posso mudar meu caminho pelas tuas palavras, tu podes mudar o teu pelas minhas. Podes morrer pelas minhas, ou viver em fartura. Porém nunca serás eu, e consequentemente nunca eu serei a ti. A maior parte dos transeuntes procuram uma conexão. Se o interesse é falho, há uma completa ausência de sentido em relação aos outros, não há nada para mostrá-los, nenhum iphone ou um artista novo, não há uma redecoração de casa, um sapato bonito, não há um novo estilo de cabelo, uma pessoa acompanhando uma foto. Minha espécie é fortemente interligada por laços de impressão. Tudo depende do que irão pensar destas pessoas, tudo bem se fores racista em 1940. Pois o estilo conduz e o governo permite.

19 de jul. de 2013


As florestas do norte

Por Bekkator

  Sou solitário. No que sinto e vejo, sou imensamente solitário. Eu sinto o calor aquecer meu rosto e ele adentra. No maçante amanhecer que chega, não há nada para que eu possa transcender. Se tal sentido é real, eu o desconheço. Lúcido é o que encontra em cada novo brotar de sol uma solução para o dia. Os homens e mulheres que caminham este solo são os mesmos desde a eclosão. São átomos que retornam e jamais morrem. Já fui muitos e muitas. E com certeza carrego cada divagação e cada pergunta, todas as confusões, as dores e todos os desejos. Por tal complexidade perco-me em muitas noções banais que parecem alheias a todos os que rastejam suas patas por esta terra. Vejo-os correr de sua natureza, correr para tão longe no esquecimento. Não os reconheço em sua estática bolha moral. Aparte, faço melodia com outras notas. No instante que a mim parece, esqueceram-se por completo seu declínio, surgem fagulhas como se quisessem escapar discretamente deste âmbito. Os homens mais vis para mim são os que menos controlam tais impulsos, o que há com as senhoras? Será que no círculo terreno em que a natureza comanda indiscriminadamente, há uma espécie de aniquilação sem retorno? Por que permanecem tais pessoas no mais pleno silêncio de ação?
    A meus antecessores fiz um juramento. Por honra, nunca haverá em mim o desfalecimento de meus ideais. Não há um caráter predeterminado ao qual esteja de maneira eterna preso. Se não aquele que se modifica de acordo com as impressões. A evolução é uma escadaria íngreme.

17 de jul. de 2013

O que você faz para mostrar suas axilas?

  Os dias passam em uma gargalhada distante, são bailarinas decoradas que ofuscam os olhos, mas nunca entram na tua cabeça. A fumaça se esvai no ar e os círculos são de imenso esoterismo, são voltas e voltas perdidas no éter. A tv liga, a música liga, a tinta encontra o papel. Esse impulso ridículo de significar algo quando tudo é um insignificante significável demais. A percepção de que tudo se resumiu ao dinheiro, ao prazer passageiro, que todos mentem sem parar. Quando se percebe que tua perdição é banal, sucumbe aos dentes do mundo. Atitudes reflexas. Neurônios espelho. Eu ligo a televisão e essa massiva cultura pop me desgasta. Nada é mais superficial, ninguém tem mais direito de ser individual porque isto se perdeu há muito tempo. Todos tem liberdade demais, nada é privado.

14 de jul. de 2013

O que restou do ódio

   Neste corpo habita algo intenso e necrosante, uma das paixões do homem. As paixões não são necessariamente ilusões criadas acerca de outras pessoas, mas sim dóceis e corruptos vícios. Quem não sabe ao certo se expressar, escreve. Escrevem os fracos, os tolos, as mocinhas. Escrevem os doentes, os tristes, os que não sabem se virar de outra forma. Os fortes nunca escrevem, os fortes não se jogam de cabeça, corpo e alma. Os fortes são limiar, nunca subterrâneos. Quando falam suas bocas se mexem e sua arcada se encontra, as línguas estalam. Porém o sangue é frio. E tudo é vazio e no entanto não se necessita  nada mais, porque estão satisfeitos em seu próprio e selado zero. Com certeza, sabem escrever, e falar, dançar e entreter se for preciso. Neste mármore queimam os bons e os maus sem distinção, quem ganha corta a cabeça do outro e enfia uma estaca nela, este a expõe como exemplo na sala de estar. Nós somos os ninguém, que querem ser alguém. Em uma corrida incansável pela busca de prazer a todo instante. Há dois polos que dividem as paixões humanas, o prazer e a dor. Também vulgarmente chamados de felicidade ou tristeza/insucesso. Ascensão e queda. E estamos sempre procurando por um e nunca pelo outro. Exceto por alguns raros momentos, quando um pode levar ao seu contrário. Tenho sede. Sede que nunca pode ser saciada. Sede que aflige e atormenta, enfastia.

11 de jul. de 2013

Overdose

 
Por Bekkator



Os pensamentos são artifícios da mente, o que então a compõe. O cérebro é um amontoado de tripas inválidas sem suas sinapses incansáveis. A mente é um buraco negro, mas nada se perde. É certo que é uma máquina seletiva e descarta de nossa realidade fatos sem importância. Contudo, eles permanecem lá em algum corredor. Somos matéria insignificante sem nossos impulsos nervosos e apenas nossas ideias não são capazes de mudanças significativas na realidade.
  Jamais nos conectamos.
   Este ideal corpóreo e cerebral nunca acontece. A carne é nula.
    É possível ouvir mais de mil vozes desconexas, um turbilhão de novas hipóteses. E mesmo assim, não é difícil encontrar apenas uma, exige esforço e concentração. Sempre estou coletando, absorvendo, digerindo  e isto não me transforma naquele que se importa demais. O que me deixa confuso é que penso estar alheio da verdade diária do mundo. Até então de maneira egoísta, pensava que todos se comportavam da mesma maneira que eu, mas sei que não é assim. Talvez esta seja uma das formas que encontrei para não estranhar. Não me sentir um estranho. Sei que todos eles são criaturas complexas e potencialmente iguais umas às outras em suas divagações. O que circunda meu cérebro no momento tem relação com a superficialidade da vida, e sua notória insignificância. Não é equivalente a dizer que estou sentindo vazio existencial. Isto é um dos vários acessórios do cotidiano atual. Até poucos séculos atrás não existia a ideia de indivíduo. Guerras aconteciam frequentemente, e a honra de um homem era medida pelo fato de lutar até conseguir a vitória de seu povo ou morrer lutando por ela. Os milhares que morreram não são reconhecidos hoje, os líderes e tiranos são lembrados. Exatamente pela ausência deste modelo de pensamento, eles morriam por ideiais. A morte não deveria ser um acontecimento absurdo. Somos guiados por três instintos predominantes, estes são: a morte, a reprodução e a sobrevivência. Parece assunto por demais enferrujado, mas sempre vem à tona. Os humanos de hoje vivem a pensar em sua própria morte, e desta forma tem um impulso de fazer muitas coisas antes de esta se consumar. Encontram importâncias onde não existe nada, pois a diferença que uma, duas, ou três mortes fariam é banal. Comparando em escalas biológicas, quanto mais seres humanos morrerem melhor seria a vida neste planeta. Bobagem. Nós nascemos aqui tanto quanto os malditos porcos, os cachorros, os gatos, os alfaces e as bactérias. A guerra de todos os dias. Nunca devemos desligar nossos sentidos desta dimensão. Não devemos pensar pacificamente porque nenhuma outra espécie o faz. As espécies são violentas e buscam tudo para si. Não somos especiais, ou alienígenas e nunca viraríamos espíritos ou migraríamos para o céu. Não somos especiais.