Estava voltando para a minha casa numa dessas tardes frescas de final de verão, todas as formigas se recolhiam sabe se lá para onde, até agora me pergunto se as formigas dormem. Os filhos delas saindo das escolas com sorrisos incríveis de satisfação que a maioria das crianças parece ter. O vermelho do sinal sempre interrompendo meus passos enquanto me jogo de esquina à esquina na esperança de não morrer atropelado por um veículo. Logo pela manhã acordei com o barulho do carrinho de alto-falantes, divulgando algo que eu preciso ter, e dizia claramente quase como pra mim, acho que é o primeiro amigo que eu tenho nos últimos meses "eu sei o que você precisa" era a mensagem, e não há jeito de eu perder essa oportunidade. Nada me desliga de mim, ou pelo menos essa voz teatral, que sussurra que eu sou um nada no meio desse vai-e-vem de corpos modelados. Antes pensava que algo precisava me distinguir, eu precisava de algo mais saboroso, mais fluorescente, algo em oferta, eu aprendi com meu amigo, do carrinho de alto-falantes. A minha vida inteira fui alimentado por inverdades, hoje eu consigo observar que vivo num mundo diferente do que planejava viver. Tenho tomado a completa certeza de que vivem melhor aqueles que nunca pararam pra pensar, que não querem mudar nada. Eu viveria em harmonia se minha única ambição fosse a de ganhar dinheiro. Eu trabalharia arduamente por isso, faria o que teria de fazer, seria corrupto se precisasse porque jamais desistiria de algo que quero.
Admito que dinheiro é uma arma, um remédio, inverso a tudo. Tudo se resume á ele, porque representa nossas necessidades intrínsecas e mesmo relutando em aceitar, eu também preciso dele. Uma de minhas convicções é de que nunca seremos livres enquanto dependermos disso, e já está conectado a nós de maneira permanente a ideia de que somos escravos deste capital porque estamos atados ao gerador desta praga, que é a aceitação pública. Aceitação é uma conotação um tanto ingênua, porque não só queremos ser aceitos como queremos ser especiais. É resultado da vomitação da mídia em nossas mentes de que há uma diferente classe de seres humanos que desempenham seu papel de homo-sapiens muito melhor que nós, simples babuínos. Na maioria das vezes esse pessoal importante está envolvido com capital, mesmo que façam doações para instituições ou protestos em letras de música, o dinheiro está ali velado.
Me pergunto se há estágios para a liberdade. Porque enfim sempre somos prisioneiros de alguma coisa, às vezes de nossos medos, outras de nossos desejos, constantemente de nós mesmos e dos outros. O que me preocupa é essa cultura do Individual mesclada a maquiada necessidade do Outro. Num ambiente onde somos educados a não nos importarmos com nada além de nós mesmos e antagonicamente nada além da opnião geral, há uma desorganização de espírito. Nsse burburinho nada se consome se não energia, os momentos se dissipam. Se perdem pelo caminho partes essenciais da concepção de vida perfeita, já que tal não existe se não em uma realidade projetada. (...)
(...) Escolho um único dia da semana, esse dia eu sou um cidadão. Tenho certas coisas pendentes, bobagens que ainda não larguei, aquele negócio verde pendurado no meu vaso, eu não sei fabricá-lo. Então eu preciso ir o heróico super-mercado. E na rua, as pessoas representam seus braços e pernas fraturados na projeção de roupas coloridas, enquanto aquele homem que nesta mesma rua mora, vem até onde estou com suas feições confusas e dolorosas, posso ver que algo cremoso está grudado em sua sobrancelha, e não quer nada de mim além de um "cigarrinho". Eu não tenho um cigarrinho, hoje não estou animado para morrer lentamente. Então apenas peço desculpas.