18 de mar. de 2013

Cadentes, Decadentes, Dentes. (livro)


Era agosto, o inverno ainda se fazia presente mas a imagem que fervia em meus olhos era de um teto morto e sem alma. Fluía sob tudo uma espécie de cobertor cinza, sem voz. Meus braços estavam tão fracos que eu não poderia nem mesmo equilibrar o peso do meu próprio corpo para me levantar. Uma música soava ao fundo... Quem havia ligado esse som eu não sabia. Não era um som que havia sido ligado. Era o som da própria natureza morta. A natureza que consome a tudo, a natureza que transforma. Eu podia notar que as folhas secas se quebravam lá, fora daqui. Aqui não há natureza. Aqui há algo que não se transforma. Está sendo drenado pelo tempo, e não virá a ser nada. Mas fora daqui, algo parecia dançar e zunir com força e vitalidade.



    Meus ouvidos foram envolvidos por algo que parecia ser o som do fundo do mar, o som que as baleias fazem. Era analgésico. Eu quase podia sentir que meus orgãos eram feitos da matéria que fora sucumbida pelo fogo, eles se despedaçavam tal qual a tornarem-se cinzas. Eu era parte folha, parte líquido. Sabia contudo que minha mente era completamente líquida. Era um redemoinho de tripas presas em jaula, meu cérebro. Esse maternal vácuo sonífero era uma canção convidativa. Ossos são engrenagens e a energia vital os move e enquanto essa energia vital não se manifesta, tais ossos permanecem como paredes brancas. Ela queria sugar meus ossos até que deles se pudesse fazer uma poção. A boca torna-se molhada, novamente a carne é macia. Chama-se fome. O corpo é um projetil que se move por entre muitas dimensões.
   Meu alvo dança lá fora, seus cabelos chicoteiam várias camadas de pele sobrepostas. Ainda não pude ver mas sei que está lá e sei que me espera. Eu não posso encontrá-la, vagamente posso ver feixes dessa criatura. Existe, isso é algo que eu consigo compreender. Só até este ponto, às vezes eu esqueço o gosto que ela tem. Ela ri, mil dentes são como uma garagem, ela quer triturar. Invade meus sonhos por estações, eu jamais ousei encarar. Sinto como se ela pudesse desintegrar e desintegra. São vários degraus agora. Eles contornam poços sem fundo. Não há janelas contudo elas balançam e rangem, paleta suína com pele, bolsa estomacal. Aquela caixa reserva um doce e apodrecido elixir, escuro e salgado. São tantas caixas, eu pretendo e finjo ao invés de puxá-las. Ao mesmo tempo em que a intenção é abrir. Ela está sorrindo lá fora, parece que sua feição se aproxima de mim lentamente... Por todos os lados, está vindo. Agora, parece que ninguém está cedendo, ela chora como um bebê. Ela range como um janela. Ela não irá se conter por muito tempo, quando não há alimento ela tende a secar. E e ela nunca está seca, é uma fonte aquosa e borbulha como um vulcão.
  Quando a circulação para pode se sentir várias estrelas explodindo no cosmos da carne, quando ela está voltando já não se pode sentir mais nenhuma sensação descritível, as estrelas vão se apagando. Quando ela finalmente volta, dança e aguarda, vem e vai, o coração me lembra muito um telefone ocupado. Os fios são artérias e o som é o mesmo. Se pode o usar como artifício para que a voz chegue do outro lado. Neste cômodo, o período é onde as estrelas se apagam e a carne é muda.
   A exaustão desse lugar arde meus olhos. Já não me sinto mais tão carnal, talvez pudesse fazer as escolhas mais doentias nessa terra de murmúrios colossais. Sinto que poderia virar um desses monstros. Se pelo menos esse lugar me transformasse em um. Minha atenção não tinha um foco até que consegui ver um pequeno senhor com um bigode afiado, está sentado observando uma luzinha que provém do alto. É um peixinho que engoliu um vagalume. Esse homenzinho quer pegar o peixe, mas ele não consegue alcançar porque é realmente muito baixo para isso. A julgar pela minha altura, eu posso muito bem pegar aquele peixe e dar para o pigmeu. Tomo posse de uma certa força que me impulsiona para cima, alguém me disse uma vez que é esse o caminho que as árvores seguem para crescer, desta vida eu só poderia fazer o mesmo, devo levantar-me daqui para estar viva. Me questiono apenas: como nós fazemos para ela continuar crescendo? Agora, Agosto ferve em caldo frio, esse é o prato da vingança. Gelado. Tudo está se repetindo em um ritmo desconexo. O homem de bigodes sequer notou minha presença. Ando doze passos em sua direção. O chão é úmido de gordura. Nessa penumbra, pouca coisa conseguia ver. Além de buracos na parte debaixo das paredes, que eram a rota dos ratos responsáveis pelos móveis roídos. Dava para notar poltronas porcamente estofadas de onde subia o ardor de mofo e a coloração manchada.
 - Eu posso pegá-lo para você - Educadamente me coloquei a disposição da figura desconfiada e aparentemente estranha. Ele olhou para mim, um tanto irritado por estar me observando por baixo. Com suas mãos finas roçou a ponta dos dedos nos pedaços de cabelo endurecidos que recobriam a sua face. Eu pude ouvir o ressoar, como a palha de uma vassoura. Então notou que a vista era privilegiada, esse era um certo escape para sua condição de criatura pequena. - Menina, você pode pegar a hora que você bem entender, só pega com jeitinho porque ele está se mexendo muito agora - Com um simples esticar de braço consigo agarrar o minúsculo peixe, ele paraiva no ar como uma pena. Entrego-o para o pigmeu, que está com os olhos ansiosamente escancarados. Sem rodeios ele o engole de forma grotesca e primitiva. Ao término de sua breve ceia, limpa o sulco do bigode. Eu assisto curiosa.
  - O que é que você está olhando princesa? - Ele diz, consigo ver os restos de peixe reluzindo nos dentes. Está muito escuro agora já que acabou com toda a iluminação da sala. - Na verdade, eu não consigo ver nada. - Eu lhe respondo com um interesse vago agora. Ouço ele descer do banco onde estava sentado. - Sabe, ainda estou com fome, nunca há nada aqui para comer. Então, aproveito sempre que aparece algo. - Ele acrescenta, com um sotaque do interior. Seus pés pequenos vão deslizando no chão encrostado de gordura, bafora como se estivesse fumando um cachimbo. Onde é que está? Se pergunta. Eu desvio de seu caminho, dá para perceber que procura por mim, imagino que quer me devorar. Eu reluto em acreditar que ainda estou presa aqui. E tudo para. O baixinho estanca.
    Ela está cantando novamente, e ambos conseguimos a ouvir. Somos marinheiros no seu mar e ela canta para nos atrair. Alguns dizem que esse espectro de sereia  fala muitas línguas, para poder chegar a todos igualmente. De certo, a interpretação é que é falha porque há diversas maneiras para a compreender.
    Ainda assim ninguém move um músculo. Sei que no íntimo este homenzinho quer ser mover dali, mas não consegue. A gordura começa a se acumular no chão daquele lugar, sinto o cheiro salgado de bife digerido. Toda vez que alguém escuta sem se esforçar para tapar os ouvidos, aquele molho cresce. A travessia é bem conhecida pelos habitantes desse lugar. Eu geralmente me detenho nele por alguns momentos, e de instantâneo já passei daqui para mais perto. É errado pensar que eles andam por aqui, ninguém nunca entra ou sai com frequência, porém se entram... Eles ficam. Onde, é que não faço ideia. Há lugares que não precisam estar presos e imóveis para existir. Este lugar é certamente um desses. Eu posso crer que aqui já houve vida, mas havendo vida haverá morte. Aqui nunca para de morrer. Quando alguém morre, vai para lugar nenhum.
   - Este lugar está desabando de novo, sempre acontece. Leva a todos. - Ele fala com uma certa agonia na voz.
   - Eu já estava indo embora mesmo. - Digo isto, e tento achar a porta
      Dor. Há algo pesado pendurado em meu pescoço de modo a querer dobrá-lo, consequentemente fechando a minha garganta. Ele olha com seus olhos de fome, digo fome porque no momento é o que ambos estamos sentindo. A aura daquele momento provoca a tal. O som de sinos de catedral surge no instante, não há pausa a cada badalada porque ecoa, antes de um dos dois sons acabarem o outro se precipita. É surreal, angustiante e acolhedor, porque faz esquecer o resto. Uma única luz invade o claustro, e um degrau vai se formando ao redor. Um enxame de mariposas é cuspido de dentro do portal, elas pairam enfurecidas na superfície do pigmeu. Ele é engolido por elas, não no sentido literal... São bem menores que ele, mas estão em maior número. E como a recepção de uma festa elas o guiam até o degrau, ao tocá-lo surge outro, e por conseguinte mais outro. Elas não fizeram o mesmo comigo, mas por curiosidade tive de ir na mesma direção. A luz ia se tornando mais diáfana e sonolenta, não era possível ver o homenzinho mas o enxame de mariposas fazia uma encenação gloriosa. Giravam todas juntas como um tornado. Os sinos iam diminuindo sua música, os ecos já eram mais lentos. Com certeza era a recepção de uma grande festa. A luz foi se esvaindo dando lugar a imagem de uma floresta de frutos, diferente dos convencionais os frutos nasciam diretamente do chão, misturados. Alguns já estavam apodrecidos resultando em um cheiro terrivelmente doce. Pensei comigo mesma que aquela viagem não fora planejada contudo qualquer destino era aceitável desde que fosse um destino. Embora não soubesse o nome nem localização, não era o mais importante no momento. Em meio ao amontoado de frutas havia mais escadas que eram o inferno arquitetônico... Levavam a todos os lados possíveis, nortes de bússulas quebradas. Não havia o menor sentido, uma subia até onde os olhos podiam ver. Aquela me chamou a atenção, era diferente. Fui pisando nas frutas com certa violência, as retirando do meu caminho, quanto mais me aproximava da escadaria mais podres ficavam os frutos, o cheiro que subia era enjoativo e viciante, eu queria mais. Para subir deveria ter um grande equilíbrio, aqueles degraus estavam amolecidos como se estivessem queimando por dentro. Algo descia por entre eles, algo branco e fino como leite. Fazia com que pequenas gotas pingassem uma atrás da outra estilo cachoeira. Era uma cachoeira de leite. Realmente difícil de subir porque não havia corrimãos. Um estrondo começou a vir de cima, onde eu não podia entender bem o que acontecia. Parecia que algo estava vindo em minha direção, e estava. Veio rolando escada a baixo um ser estúpido e nojento, parecia um dedo de um metro. Tinha uma expressão irônica e olhos caídos, parecia estar sentindo até algum prazer em estar rolando naquele líquido e batendo sua pele sobreposta nos degraus meio moles. Ele não falou nada nem mesmo me olhou nos olhos, mas puxou minha mão para que fossemos juntos. Chegando ao fim ele abre a porta e vejo que há uma multidão de homens de um metro. Um metro e meio talvez. Eles estão tendo uma grande festa, seria falta de educação eu reparar na imensa sujeira que estava no chão? Não só no chão como em todos os lugares. Até que enfim cheguei a um lugar aberto, era uma festa no jardim, podia ver o céu avermelhado abarrotado de nuvens e montinhos de grama cor caramelo. Corriam patos e galinhas e também seres que não consegui distinguir mas pareciam espécies de homenzinhos com quatro perninhas de cada lado, nus e de aspecto enrugado. Haviam vários sapatos brancos jogados pelo chão, e perto deles fezes desses animais que rodeavam o lugar. Na multidão havia um bolinho de pigmeus todos juntos, pareciam estar assistindo algo. Tive de ir porque o dedo de um metro (assim o chamava agora) continuava a me puxar. Foi abrindo caminho entre os outros...
E ali estava.
     Me olhava intensamente como se faiscasse dentro daqueles olhos. Aquele lugar tinha dono. Na verdade era uma dona absurdamente alta, esguia e manchada. Tantas pintas e verrugas quanto se podia contar. Dava para notar com facilidade que ela tentava maquiar isto com uma gosma. Seus olhos tinham auréolas sombreadas amarelo escuro, tão caramelo quanto aquele lugar. O nariz era uma protuberância vermelha, e a boca era murcha e cheia de dentes consumidos por doenças. Parecia sorrir e apreciar minha chegada.  Ela estava ali como uma rainha, em meio aquele amontoado de massa gorda sem sentido que parecia trabalhar para ela como um grande aparelho de servidão sem haver fim.