Meu nome é Pedro, achei correto começar com meu nome porque se apresentar é educado. Longe de ser o que sou, Pedro é um nome bastante comum. O cara que me vende pão francês se chama Pedro, o estranho mesmo é eu saber o nome dele, eu não deveria. Quando estava na escola, durante vários anos haviam uns dois Pedro, e na faculdade também foi assim. Meus pais provavelmente não tinham criatividade suficiente para um nome singular, ou então não queriam que eu fosse motivo de piada entre meus colegas.
Meus pais... quando vemos nossos pais diariamente com suas vidas pacatas, pensamos que eles nunca foram jovens como nós. Achamos que podemos concluir todos os nossos mais assombrosos e loucos sonhos. E então olhamos para eles. Não há nada de errado porque eles conseguiram a tão sonhada casa própria, criaram seus filhos com dignidade e viram terríveis pés de galinha crescerem no rosto, mas com um carro na garagem. Quando se tem vinte e cinco anos você não sabe o que vai acontecer, não sabe de nada. A realidade é que ninguém nunca sabe o que vai acontecer no próximo minuto, para alguns esse é o sabor da vida, o gosto do inesperado. Para mim, causa certo espanto.
As pessoas que gostam de nós de verdade, sempre tendem a puxar para o chão, tal chão é o lugar mais seguro a se estar, não é o pior lugar. Porém nossa vida é em resumo a escassez de tempo, ou de momentos. Richard Linklater escreveu em seu roteiro para o filme Waking Life, que gostaria de viver momentos verdadeiramente humanos. Nós estamos tão fodidos, tão terrivelmente iludidos. Nós estamos sempre tentando provar algo para as outras pessoas, que podemos ser mais felizes que elas. Porque felicidade em nossos dias é um artigo mais caro que dinheiro, ou uma Ferrari. Nós compramos aquelas coisas que não precisamos, mas para afirmar que estamos tão ou mais felizes com elas do que os outros. Para estar no mesmo âmbito de satisfação.
Ao longo da minha pequena experiência de vida, eu vi algumas pessoas esfregarem sua alegria e satisfação pessoal na minha cara, "Eu tenho, eu sou, eu fiz". Alguns conhecidos se aventurando em terras distantes, seus bens e seus talentos. O que me deixa com certo mal estar não é que eles tenham mais coisas materiais ou não que eu, mas por não me importar tanto quanto eles. Lembro-me de minha mãe, comprando vestidos novos para encher suas inimigas de inveja, às vezes ela queria atingir as amigas mesmo. E perdi as contas de quantas vezes ela disse que só passava por maus momentos porque às pessoas colocavam seus "olhos grandes" em tudo o que ela tinha.
Aqui estou, no entanto. Trabalhando como professor de geografia em uma escola de ensino médio. Minha tarefa é preparar adolescentes espinhentos para passar o que estou passando. É olhar caras ingênuas todos os dias. Caras joviais e cheias de resto de leite de mãe e baba de pai. É ver-se refletido em tais caras de proteção. E perceber que já foi um dia como eles, atrás de um diploma. Meus professores enminhocaram minha cabeça dizendo que se formar é a melhor entre as melhores coisas da vida. Não passo fome ao menos, mas fome eu tenho. Quando foi que mudaram minhas percepções? Quando aceitei que esta é a vida que eu quis? Foi quando eu acreditei que só existe uma realidade.