Notas
Estou observando um menino e uma garotinha olhando para a fresta que mostra o mar negro e o céu escuro na praia, é um dos poucos momentos agradáveis que nos oferecem. As crianças do nosso conjunto habitacional pouco se divertem, porque todos sempre estão ocupados demais, e também paranoicos. O lugar que estamos habitando chama-se Zona 9, porque segundo nosso líder, Caçador, existem mais oito conjuntos até chegar aqui. O compartimento onde estamos tem um grande sofá pouco confortável e bastante desgastado, um armário onde estão guardadas algumas ferramentas e um depósito de comida enlatada. Existem muitos quartos como este onde se alojam de três a quatro indivíduos. Todos improvisam um lugar para dormir e recolhem logo quando a claridade aparece pelas frestas nas rachaduras da parede.
Ainda estamos no século XXI e o inevitável acabou acontecendo muito antes do que previam nossos filmes e histórias assustadoras, e bastante diferente do imaginado. Nenhum extraterrestre veio nos aniquilar, nenhum morto ressurgiu para atormentar os ainda vivos. No entanto, os vírus e bactérias causadoras de doenças se proliferaram enfurecidamente pela sujeira e pela falta de tratamento. O que penso agora vendo tamanho caos é que estive assistindo enquanto bons cidadãos rugiam suas magnificências e levantavam suas bandeiras, o puritanismo moderno dos valores subvertidos e da moral corrompida. Eu observei o ocidente ruir, derreter como gelo ao sol. Os mestres de primeiro mundo brincavam com a vida alheia como se joga xadrez. Eu observei a chuva de bombas, eu vi fome e desolação, eu vi miséria e pedidos de ajuda. Até que eu mudei de canal e fui ver como as girafas se reproduziam. Eu nunca imaginei que fosse cair aqui bem nas nossas cabeças. Foi uma grande e furiosa onda, como naquele instante em que falta luz e se fica desorientado.
Para os ocidentais a vida sempre foi inabalável, seja pela esperança na indulgência divina ou pelos olhos do próprio homem. A diversão é sempre despreocupada quando nos alimentam e nos protegem até de nós mesmos. E é bastante surpreendente como tudo muda, e nós sempre soubemos. Quando havia um engarrafamento, explodíamos. Quando levávamos uma advertência do chefe, explodíamos, ainda que internamente. Conta bancária, filhos no supermercado, carro arranhado, parentes. O inferno é um projeto inacabado, nunca se está completamente bem com a iminência de dar tudo errado.