13 de fev. de 2014
8½
Não sei, não sei se crio, eu sou a criatura feita pra criar? Eu sou uma cópia, todos são uma réplica. Todos são migalhas, todos são vestígios, miragens. Passei tanto tempo da minha vida a observar outras pessoas, outras ideias... Talvez, não somente tenha adquirido delas a inspiração, mas a vontade de ter algo a dizer. E se eu não tiver nada a dizer? E se eu for apenas movida por essa sede de significar algo, num mundo que não significa nada?
Andar pelas ruas sempre me fascina de algum jeito, mesmo que a visão que eu absorva seja de uma miséria completa. Às vezes, um simples fato rotineiro me toma a atenção, esses são os melhores. Tal como posso ver beleza onde para muitos há só feiura, também posso ver algo de especial no vulgar, no banal. A música que mais admirei nos últimos dias, foi cantada pela boca suja de um homem sujo. "Eu não posso entrar na loja de vestido de noiva, lá só eles podem entrar" Ele gritava no meio da multidão.
Percebo cada vez mais que as pessoas estão sempre andando, sempre seguindo como um cardume de peixes, como gaivotas. Elas devem ter algum lugar para onde ir, partir e chegar. E se permanecerem paradas no meio do vai-e-vem de corpos, certamente vão causar estranhamento. Assim como fazer qualquer coisa que não esteja no roteiro. E é por isso que eu gosto de ver algo novo, algo esquisito e notório. Como se fosse uma falha em um sistema perfeito, tão absurdamente cheio de imperfeições. Porém, para eles...
É preferível fechar os olhos. E seguir.
Descobri uma certa brevidade na vida, que antes talvez não tenha percebido. "Os humanos estão ocupados demais pensando na própria morte, é isso que os induz a fazer algo agora." Eu escrevi. Tenho a impressão de que eu não tenho consciência do que escrevo por vezes, especialmente quando trato em terceira pessoa. Eu não tenho consciência, ao viver a vida em terceira pessoa. Eu nem mesmo tenho a equivalência de cuspir no espelho. Eu gostaria de sentir mais, eu gostaria de saber como é a imprevisão. Eu sinto demais. Eu nem gostaria de saber. Eu sei.
Há raízes tão interiorizadas que para subir até a superfície, arrastam, arranham e rasgam por dentro. Faço uma festa incrível, dentro da minha cabeça. Quando eu brincava comigo eu me sentia enfim alguém intocável, num mundo a parte. Passei partes da minha vida sonhando acordada, literalmente. Sem estar presente. É curioso lembrar disso, minha mente simplesmente voou para fora de mim, e em certa ocasião ela parece ter voltado diferente. Eu poderia dizer que é difícil conhecer alguém como eu, porque eu sigo exatamente a prescrição, como um passo de dança. Até que então, alguém toma conhecimento de algo espontâneo. É assim com grande parte das pessoas.
Hoje eu já não sei se vou fechar os olhos, e acordar outra pessoa. Não sei se posso ouvir ou ver algo que não está ali. Quando tudo fica escuro e o medo iminente de uma morte distante, é quando guardo uma sensação por tanto tempo que fica difícil, e ela explode em mim. Ao mesmo tempo, sinto estar tão leve e equilibrada.
Sei que faz parte da mutação.
