5 de mar. de 2014

Descarga Mental

     Moacyr Scliar me contou que escreve desde criança e desde então sofre desta curiosa perturbação existencial que consiste, segundo Kafka, em trocar a vida por palavras. Ouvi dizer também que os escritores em geral tem um forte sentimento de inequação. Para mim, escrever é uma oportunidade de se expressar e de trocar incessantemente ideias. Na maioria das vezes penso que não estou dizendo tudo o que quero dizer somente no ato de falar... Eu não acho que a melhor forma de comunicação seja a da fala. É sobretudo a mais útil e a mais prática.



    As pessoas tem um faro, uma capacidade de identificar o que as outras querem dizer sem que elas nem mesmo abram suas bocas. Um simples aceno, um sorriso, braços cruzados, pés que batem continuamente no chão... Eles dizem algo. E quase todo mundo consegue traduzir uma imensa e complexa linguagem de expressões corporais. Tenho a impressão de que tem gente que traduz personalidades somente por estar presente no mesmo ambiente. Eu, quase nunca falo. Ainda mais se estiver com muita gente ao meu redor. E tenho certeza que todos interpretam essa minha ausência de retórica com maus olhos. Ou se compadecem de alguma maneira, como se eu fosse alguém singelo.
   O que basicamente resulta num aglomerado de pensamentos aflorando dentro de minha cabeça. Tanto que meus velhos arquivos já não dão conta de organizá-los. De certo não há nada muito aproveitável, muito menos o ciclo paranoico. O ócio é o pai de todos os vícios? Pois exatamente quando paro de fazer qualquer coisa lá vem os pensamentos formar uma festa. E vai de planos infundados sobre o futuro, a presença de morte súbita, a adaptação à finitude da vida. As teorias sobre criação do universo, sobre os sistemas sociais, teorias, mais teorias. Conspiração. Alienígenas. Espiritualidade. O grande imenso nada. O niilismo apático.
   Por vezes tenho que observar por horas as pessoas em suas vidas cotidianas para voltar à adaptação, à normalidade convencional. Eu não acho desinteressante o meio de vida da maioria, às vezes os invejo em suas conformidades, em seus momentos de agrado. Eu devo ser uma dessas pessoas loucas. Eu esperava que fosse um louco como Salvador Dali ou van Gogh... Não. Van Gogh nem pensar. Gosto de minha orelha direita.