28 de mar. de 2014

Contos da Noite




Olho do alto e então percebo que diante da cidade que dorme
Já tornei-me a árvore solitária da igreja
E o gato soturno que passa por baixo
Não tornei-me nuvem porque todas são uma só
Mas porque então eu também sou tão só
Quanto a cidade que dorme?





Às vezes, gosto de ficar aqui e 
Sentir o frescor da noite calma
Noite permeada de sangue tão serena e calada
Tão silenciosa e perversa, e nas ruas que atravessa
Engana pela calmaria
E pensar que...
Posso sentir cada uma delas tornar-se apenas a mim
Tal como rua sem fim
Que nos bares se alegra
E nos hospitais a morte chega
E nos cantos de morte
Eu chego na cidade
Embriagada pelo seu cheiro
E terrivelmente morta de saudade
Morta, mil vezes morta
Sem vida a caminhar 
E a cidade dorme em mim
Que já sem fôlego caminho
Procurando por um lar
E não há nesse mundo, ou qualquer outro
Se não os braços dele
Onde escolhi morar

Eu adentro minha xícara num mundo azul
E pergunto-me se essa é a mesma visão
Que ele tem quando bebe seu café
Numa manhã fria ou numa tarde quente
Às vezes sinto uma palpitação
E penso que logo a morte se aproxima
E não há descanso em minha mente
Se não quando ao imaginar as covinhas
De seu rosto pequeno
Escondidas entre os pelos da barba 
Meu amor,
É tão infinitamente belo
Em cada traço seu

E em seu jeito de andar em compasso com o meu
Ao transformar cada rua em minha rua preferida
Mesmo no inferno congelante e santo 
Que é a derrota de minha vitória
Onde chove sem parar
E poder encostar minha mão na dele
Mãos que são tão pequenas e delicadas
De onde provém a sua arte
E também podem me tocar
Meu amor, 
É tão selvagem e forte
Capaz de fazer uma cidade morta
Como eu
Tornar a respirar