Eles andavam para lá e para cá, e não perdi tempo em imaginar o que iam fazer... Ao menos tentei. Só os olhei, e percebi que suas roupas cheias de cores me deixavam confusa. Olhei para o verde das árvores e me senti mais tranquila. Percebi que um passarinho movia sua cabeça freneticamente de um lado para outro, e por vezes chegava a me olhar. Em sua naturalidade, não se preocupava em ser apenas ele, enquanto os viventes abaixo tinham suas identidades preservadas por materiais alheios.
Agora, sinto-me ignorante de tentar julgá-los. Nem sei se cheguei a negativar suas ações se não quando era uma menina cheia de raiva juvenil. Eu também não subestimo a raiva, no entanto não a considero saudável para o indivíduo, e também para o coletivo. A raiva é o rancor do ferido impulsionado pelo desejo de vingança, e tal vingança é apenas o anseio de retirar de si, a própria dor. A raiva então, não equivale a grandeza de poder, mas sim a fragilidade e o abatimento transformados em ação negativa. E, nunca realmente saciado aquele que tem a raiva enraizada, tornará a cometer a perturbação do objeto. Não conseguindo atingir quem causou sua comoção, pousará sua fúria nos que da situação são inocentes.
Saio então da loja de doces, para visitar novamente a biblioteca. Me sinto estranhamente confortável no lugar, caminho pelo chão de madeira e pego o livro que estava a ler da última vez: "Dali, o diário de um gênio". Eu adoro esse cara, o Salvador. Como ele fala sem pudor de seu cieiro, e chega a tratá-lo com sentimentalismo. E como fala que embora Andre Breton e seu grupinho, dessem a "permissão" para Dali retratar assuntos escatológicos, lesbianismo, sexo e sangue dentre outros temas, ele não podia retratar a imagem anal, nem a pederastia. E isso o deixava tão afoito que ele retratava mesmo assim, de maneira imperceptível. Pelo menos, foi o que entendi. E isso, é realmente espirituoso. Pensar que o grande pintor do surrealismo escondia alguns ânus em suas obras para sacanear seus "colegas" e para expressar sua vontade de pintar o orifício.
Também fala que ia para salas de banho evacuar, e até onde li parecia que ele brincava com o leitor, o fazendo perder tempo de suas vidas lendo as baboseiras que ele escreveu, porque ele queria fazer isso, somente. Penso que ele fazia isso com as pessoas, inclusive em suas obras. É claro que, eu não considero suas obras perda de tempo, isso seria blasfêmia, e "Blasfêmia é a palavra mais grandiosa em castelhano". Penso que se eu soubesse como pintar, eu retrataria Dali ajoelhado em frente à um grande espelho, com vestes douradas, manto vermelho... Fazendo uma oração para ele mesmo. Ele brilharia no escuro molhado, da sala de banho. Em sua orelha o jasmim. Peixes dourados, mortos no chão. Eu o retrataria como o Cristo dourado, Avida Dollars. O deus do ouro.
Sai da biblioteca me sentindo penetrada. Por ideias, e vontade de escrever. E muito mais tranquila, porque provavelmente tive uma conversa interessante com alguém que valia a pena conversar, mesmo que já tivesse morrido há algum tempo. Então, fui chamada cósmicamente, mentira foi curiosidade, para um casarão antigo. É estranho que enquanto eu escreva isso aqui, na rua alguém escuta um Funk em alto e bom som, para perpetuar e espalhar seu estranho gosto musical. Imagine colocar uma ópera excitante, ou um Death Metal no mesmo volume em que eles expõe seu estilo musical denominado Funk. Mas, só para irritar e chamar atenção, e observar a reação. Talvez, só uma vez.
O Casarão pertenceu ao Barão de Butuí por algum tempo, e ao Adail Bento que era um artísta e zelava pela arte e restauração dos prédios de Pelotas. Estive em meio a sua mobília, e caminhei por sua casa. Gosto de estar em lugares assim, penso que sou um ser atemporal, porque o tempo na verdade é uma contagem de dias para melhor organização, ele passa sim. E de maneira que o universo percebe, mas não se comove. O mundo não acabou e nem deveria. Desde que nasci consequentemente venho passando com o tempo, e isto não significa que ele esteve parado antes de eu nascer, ou vai parar quando eu não mais existir. Somos reflexos, flechas no tempo. Somos sombras, luzes que faíscam no caos. Eu abro minha mente perante ao ininteligível, e me convenço de que nunca estamos de verdade lúcidos, e isto é reconfortante porque a realidade na verdade, não existe, coexiste, e existe se assim quisermos. Essa viagem onírica é puramente mental. E nossas mentes jamais viram poeira, eu acho.
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| Autoretrato de Adail Bento |
