14 de mar. de 2014

O sexo frágil

                                                                

     As mulheres são frequentemente diminuídas no âmbito social mesmo depois de séculos de luta. Há diferença salarial, ainda que tais lutadoras tenham maior participação no mercado de trabalho do que os homens. Se a mulher for negra, segundo estudo, recebe menos por seu trabalho e tem mais dificuldade em conseguir emprego. Além disso, o corpo feminino ainda é moeda de troca e venda não somente pela prostituição, mas como na mídia. É frequente colocar uma mulher seminua para anunciar um produto, este artificio é usado como estratégia de marketing para prender a atenção do consumidor. 




    As agressões nunca cessam sejam elas físicas ou verbais. Não há sequer uma mulher que possa relatar que nunca recebeu uma cantada na rua, ou um simples porém azedo "Oi" de um homem desconhecido, e quase sempre com diferença significativa de idade. As garotas que estão no padrão de beleza aceitável, ao passar por um ou mais homens tem chances significáveis de ser chamadas de "gostosa", ou ouvir um "Ô lá em casa". E as gordinhas, ou as que tem uma estética diferente também não estão livres de ser rebaixadas por tais espécimes de ditadores nas ruas. 
   A humilhação e a intimidação proferidas por estranhos na rua, não são o único tipo de violência que sofrem. Milhares de pessoas morrem todos os anos apenas por serem mulheres. E muitas vezes quem pratica a agressão está dentro de sua própria casa. São estes pais, maridos, namorados, padrastos, tios, vizinhos e toda sorte de indivíduo que comete o crime. É uma prisão sem grades, onde se perpetua o medo. Porque ainda não existem leis rígidas para punir o agressor. A mulher que denuncia apenas tem direito de mantê-lo 100 metros de distância de si mesma. Depois da denúncia, ela pode torcer para não ser mais agredida, ou consequentemente assassinada. 
   A mulher que tem um óvulo fecundado, no Brasil não tem direito ao aborto. É uma questão polêmica, onde entram fatores sociais, morais e religiosos. Desde os tempos da Eva, segundo a religião mais difundida no ocidente, o gênero feminino é visto como o bode expiatório para os erros de Adão. Esta que veio de uma de suas vinte e quatro costelas. Mesmo com toda esta história, o aborto não é ausente no território brasileiro, ele apenas é ilegal. Desta forma, as mulheres procuram clínicas ilícitas geralmente com péssimas condições de higiene e médicos desqualificados, como consequência acabam morrendo ou perdendo a capacidade de gerar filhos posteriormente.
    Desde a mais breve idade, as meninas já tem um arquétipo de gênero que modifica sua personalidade. Elas são ensinadas a brincar com objetos de cozinha, a cuidar de bebês de brinquedo, a vestir o rosa, sentar de pernas cruzadas,  pintar suas unhas, e depois a viver numa eterna paranoia em relação a seus corpos. Isto se aplica a muitos meninos que também são ensinados a ter uma postura que por vezes não se aplica a sua real identidade. E, em geral um menino é criado em meio a mulheres. Aqueles homens nas ruas, os que cantam e desrespeitam, os que agridem e os que se colocam como melhores, foram educados por mulheres. E há uma centena delas que estão coniventes com os absurdos aos quais também são vítimas.
    Fora do Brasil, há casos de que normalmente uma mulher que tenha sido estuprada, por lei tem o "direito" de casar com seu agressor. E, na Índia a frequência de ataques com ácido provenientes de homens, em geral para vingarem-se de desilusões, é alarmante.  O país vive uma transição entre a sociedade tradicional, em que as mulheres eram sempre submissas e dóceis, e a contemporânea onde elas agora, com acesso à educação e trabalho não desejam limitar-se ao antigo papel. Parte dos homens indianos vê a mudança com um desafio a sua sexualidade, particularmente quando vivem um episódio de rejeição amorosa. Transformando seu recalque em violência brutal.
    E há quem diga que as mulheres exageram ao persistirem na luta, ao não se dobrarem aos preceitos de uma sociedade que embora dê sinais de evolução, ainda é terrivelmente desigual. Porque a estranha ideia de as mulheres são seres humanos, gera desconforto em grande parte da população. A ideia de que não é necessário ser bonita, magra e depilada para ser gente, e que a capacidade está no cerne do indivíduo e não em seu genital, é uma novidade inacessível para muitos. Parabéns a estas que mesmo sofrendo imensamente, jamais perdem sua coragem.


   
Malala Yousafzai,  ativista paquistanesa que sobreviveu a tiros na cabeça e pescoço vindos de talibãs armados