20 de abr. de 2013

Crime, Castigo e Indulto

   Estou descendo uma rua de São Petersburgo, o frio faz com que minha respiração quente vaporize. Minha pele está tão gelada quanto a de um recém falecido, ambas as mãos estão livres. Carrego dentro de minha mochila um exemplar de Crime e Castigo. Meu nome é Raskólnikov e desde que ouvi falar que fizeram um livro sobre mim não pude descansar até o conseguir. Muitas pessoas estão tentando ganhar a vida nesta cidade, algumas apelam para atitudes moralmente reprováveis, eu sou uma delas. Porém após conhecer Sonietchka notei que não somos responsáveis pelas tragédias que permeiam nossas vidas. Acredito que quem escreveu a obra que venho trazendo comigo observou-me por muito tempo e acabou por perder-se após eu ter ido para Sibéria,  trazendo fatos que não condiziam com minha atual realidade. 
    A cadeia foi o lugar mais sujo que já estive, e já estive em lugares extremamente degradantes. Ao menos quando estava fraco e enraivecido fugia para uma taberna onde um copo de aguardente dava-me as graças do conforto. Lá na Sibéria só pude pensar em uma única coisa, em Sonia. A princípio tudo o que conseguia imaginar era em sair daquele buraco putrefo e construir uma casa, ter filhos. Ter a liberdade de ser um homem perdoado pela lei e amado pela mulher que havia me salvado. Ela foi visitar-me durante um longo e penoso ano, onde me ditava evangelho e essas baboseiras. Já havia me acostumado às grades e muralhas que se erguiam a minha volta, para encontrar o sorriso da redenção que esperava para me ver.
    Belo ano foi, eu cheguei a crer que poderia passar o resto da minha pena daquele jeito. Não me oporia se ela estivesse lá, sempre para que o amor tivesse um lugar para crescer. Quando o amor não encontra um solo propício ele morre aos poucos e dá lugar a algo que não precisa de lugar algum para existir, o mal em essência pura. A solidão que encontrei nas manhãs, tardes e noites no pior lugar que um homem pode estar, Sonia não poderia imaginar. Recebi uma notícia por minha irmã, de que Sonia havia voltado a usar boletim amarelo. Isso partiu-me, por dias sem fim vaguei vazio pelos cantos da cadeia. Nada ou ninguém por mim rezava, todos odiavam um homem que corrompeu os desígnios de Deus.